terça-feira, 2 de outubro de 2012

Das mandíbulas mutantes

Gosto de sublinhar a relação íntima entre o computador e a guerra, observando a proximidade entre a necessidade que fez nascer o mundo digital e o gosto humano por aniquilar o vizinho com máximo prejuízo. O cálculo de trajectórias balísticas, o decifrar de códigos secretos militares ou cálculos de efeitos de explosões nucleares foram a razão de ser de máquinas como o Colossus ou o Eniac, anciães antecessores do dispositivo computacional portátil periclitantemente equilibrado no colo em que escrevo estas palavras. Na história da computação é claro que os computadores foram criados com o fim expresso de perceber como esmagar mais eficazmente o inimigo.

Essa relação caliente é particularmente notória ao olhar para as origens da internet. A arpanet, antecessora do éter virtual de enorme complexidade que trouxe à humanidade as maravilhas dos lolcats, memes irritantes, pornografia à la carte e actualizações anódinas de perfis em redes sociais, nasceu da necessidade de descentralizar comunicações no caso extremo de guerra nuclear terminal.

Nos bons velhos tempos da guerra fria era sério o medo de que um desentendimento sério entre Washington e Moscovo levaria em sete minutos os céus da Europa, América do Norte e Ásia a serem percorridos pelos rastos de mísseis de ogivas múltiplas, que reduziriam as grandes cidades a poeira radioactiva debaixo de cogumelos nucleares onde os sobreviventes se desfazeriam em pústulas sangrentas tentando raspar restos de comida contaminada por entre os restos reluzentes de radiação de uma civilização autofágica. Talvez acabando por entre as mandíbulas de um qualquer insecto mutante sobrevivente à catástrofe atómica, exemplar das espécies disformes que herdariam o planeta após o suicídio da espécie humana. Imagens de uma era em que a capacidade das armas nucleares chegava para destruir o planeta três vezes, porque, enfim, uma só poderia não chegar. Mesmo assim, raciocinaram as mentes inteligentes da DARPA, seria necessário continuar o governo e as instituições, apesar das dificuldades logísticas advindas do facto de os principais centros urbanos se tornarem crateras radioactivas no caso de uma troca razoável de bombas e mísseis balísticos intercontinentais.

Isto é hoje uma curiosidade histórica. Os silos de mísseis vão sendo desmantelados ou transformados em habitações de luxo para fãs endinheirados de sobrevivência extrema ou tecno-fetichistas. Podemos contemplar em museus a grandeza fálica dos mísseis capazes de chegar à orbita baixa e libertar uma panspermia atómica. E graças à ideia de comunicações descentralizadas tivemos o percurso de investigação tecnológica que criou a internet, esse meio de comunicação eminentemente mcluhanista que literalmente mudou o mundo e a mente humana. Aquele futuro pós-apocalíptico em que andrajosos sobreviventes se arrastavam por entre crateras radioactivas não chegou a acontecer, embora talvez uma pandemia viral global ou uma singularidade tecnológica nos levem desta para melhor. Até lá, mergulhemos no pulsar da consciência global alimentada pelos pacotes de dados binários que circulam nos cabos de fibra óptica que abraçam o planeta.

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