segunda-feira, 30 de julho de 2012

Única fuga possível

As palavras angústia, terror, violência, vertigem, brutalidade, grotesco, espanto, convêm, globalmente, àquilo em que pensamos quando nos referimos à "cultura portuguesa"? Suporta a praia íntima do lirismo que se espraia do Minho ao Guadiana essa inscrição blasfematória no museu gesticulante do que costuma designar-se por "expressionismo"?

Com este disparo arranca o ensaio de Eduardo Lourenço Cultura portuguesa e expressionismo sobre a impossibilidade quase que genética da cultura portuguesa abarcar movimentos viscerais ou afastados daquele tom do mainstream que o ensaísta genialmente qualifica de praia íntima do lirismo. Troque-se o vocabulário stürm und drang por jargão tecnicista, expressionismo por ficção científica e o lirismo pela certeira expressão de João Barreiros literatura urbano-depressiva e temos um quadro que assenta como uma luva na impossibilidade da FC na cultura portuguesa. Não por acaso, em parágrafos seguintes, Lourenço refere em poucas linhas a similaridade de razões para a ausência de uma cultura do fantástico na forma como é entendida no mundo anglo-saxónico.

O ensaísta, sem dar respostas, aponta para o carácter não iconográfico teísta de culturas imbuídas pelo espírito do protestantismo que não encontram referente imaginário para a ideia de um deus e para o conflito entre a modernidade e as pulsões e inquietudes interiores do homem como alicerce do expressionismo, com o seu carácter vitalista. Não que a cultura portuguesa tenha passado incólume a este movimento, mas a sua expressão nunca chegou à importância que teve na cultura global.

Há aqui paralelos com a ficção científica, que por cá em sementeiras múltiplas insiste em dar poucos frutos, apesar do esforço empenhado dos autores do género. Sonhar o futuro e analisar o impacto da tecnologia no fluxo humano parece algo tão ao arrepio do lirismo fadista e introspectivo dos ramos principais da cultura portuguesa. Dedilhamos, olhamos o horizonte, contemplamos o pôr do sol, perdemo-nos em reminiscências de passados perdidos. Deixar fluir o vigor em bruto da alma ou conceber futuros possíveis ou plausíveis parece não encaixar no nosso espírito. Com excepções, claro, olhadas de soslaio, apelidadas de maluquinhos ou acusadas de incapacidade de ultrapassar a juvenilia. Como se crescer obrigasse a um mergulho num cinzentismo espartilhante onde a reminiscência do tempo perdido se prefigure como única fuga possível.

Exprimir a existência, imaginar os futuros. Tarefas talvez impossíveis num país cujo húmus cultural herda o determinismo teísta. Dominados pelos deuses e pelo destino, não necessitamos de construir a nossa realidade.

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