terça-feira, 22 de maio de 2012

The Rape Of Nanking

Iris Chang (1998). The Rape Of Nanking. Ringwood: Penguin.

Quando falamos nas atrocidades cometidas na segunda grande guerra normalmente ficamo-nos pelo holocausto. Talvez por eurocentrismo, talvez porque o horror ao nosso lado nos pareça mais chocante, talvez pelo carácter mecanizado da carnificina em nome de ideais absurdos. Mas a segunda guerra foi mundial. Não se passou só na europa. Noutros locais do planeta a mortandade industrializada já se tinha iniciado antes da data historicamente acordada para início da II guerra. E com as operações militares vieram os excessos e as tentativas de genocídio. É o caso da invasão japonesa da China, que deu azo a histórias de horror de arrepiar a espinha.

Para a história ficaram as pouco faladas atrocidades de Nanquim como um dos piores exemplos de genocídio sistemático levado a cabo pelas tropas nipónicas sob a população chinesa. Este livro olha com atenção para esse triste momento na história moderna. Lê-se como um bestiário medieval ou um livro do apocalipse moderno: uma infindável litania de atrocidades violentas, carnificina, barbárie em estado puro. Nanquim ficou para a história como um verdadeiro catálogo de atrocidades. Tudo o que se puderem lembrar - violações em massa, execuções sumárias, degolamentos em via pública, tortura sádica, experiências químicas em prisioneiros, foi cometido contra a população indígena de Nanquim. Se o holocausto europeu foi uma tarefa mecanizada e burocrática, o genocídio chinês foi coisa bárbara e sanguinolenta.

Resta pensar o porquê. Vemos o Japão como uma terra dócil, de cultura elegante e peculiar. Há uma dissonância cognitiva entre a selvajaria nipónica na II guerra e a poesia às amendoeiras em flor. Por outro lado, conhecedores da cultura pop japonesa sabem que há uma sub-corrente tenebrosa no carácter simpático da nação. Mas isto é o presente. No passado recente, os japoneses foram sujeitos às tiranias ideológicas de um violento fascismo militarista, que semeou as raízes para a barbárie em combate.

Parte deste livro olha para o relativo desconhecimento de Nanquim e das atrocidades nipónicas. Olhamos para o horror do nazismo, discutimos os excessos soviéticos, falamos da controvérsia da política do bombardeamento de terror aliada. Os crimes japoneses ficam-se como nota de rodapé. Em parte isso deve-se às pressões geopolíticas da guerra fria, que mantiveram o Japão ocupado relativamente intocado se comparado ao ano zero alemão. Essa manutenção do status quo é ainda hoje responsável por uma forte corrente revisionista que suprime sistematicamente referências aos crimes de guerra cometidos por forças japonesas.

The Rape of Nanking é um livro aterrador. Não só pelo catálogo de horrores, ou pela distorção política das memórias. Deixa a sensação que a história se repete. Ficamos chocados com as atrocidades da segunda guerra, mas na memória recente temos os genocídios ruandês ou jugo-eslavo para nos recordar que se a história nos dá lições, elas depressa são esquecidas por uma desumana humanidade.

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