A morte como estratégia eficaz de regresso às luzes da ribalta. Por puro acaso apanhei parte da cerimónia comemorativa da memória de Michael Jackson e fiquei espantado. O espaço estava apinhado de pessoas que vinham lamentar o falecimento de um artista que estava semi-esquecido e falido, longe pelas luzes da ribalta. Surreal: líderes das comunidades afro-americanas a discursar em memória de um homem que se transformou cirurgicamente de afro-americano em caucasiano, alterando a forma do rosto, a cor da pele e o cabelo, apontando-o como um exemplo para as comunidades afro-americanas. Virtual: chamar artista a alguém que foi essencialmente cantor e dançarino, cabeça de uma enorme máquina de produção industrial de música. Certeza: morrer é uma excelente forma de regressar à fama. A figura do cantor, paradigma mediático do excêntrico absurdo, semi-esquecido excepto aquando de escândalos que acentuam a bizarria da figura, reinventou-se do dia para a noite como figura mítica de contornos trágicos.
(E porquê o meu interesse nisto? Este é um puro exemplo de krach viriliano. Um dos novos desastres da modernidade, ampliado e replicado em múltiplos ângulos pelas lentes dos media.)