terça-feira, 7 de julho de 2009

Momento mágico



Estou correntemente a frequentar uma formação para professores ligada à arte e ao seu ensino. Decorre da forma típica da formação de professores neste país, superficial, desactualizada e centrada numa pequenez assustadora numa classe que tem como missão abrir a mente às gerações futuras. De vez em quando deixo cair umas bombas com "pois, mas aqui nestas estátuas da basílica de Mafra há que ver a sua componente simbólica no contexto da mitologia cristã, essas formas que de falam são apenas os atributos dos santos representados" e depois aponto os atributos e ainda refiro o Signs and Symbols in Christian Art. Ou falo em coisas elementares como o conceito de horror vacui, ou vacua, latim não é o meu forte, subjacente ao barroco. Sou recebido com uns olhares vazios e uma expressão de pois, pois, cala-te lá que 'tamos aqui é para fazer o crédito não para ficar a saber coisas que não interessam. Penso ter selado o meu destino (e a minha fama de "cromo") quando partilhei a citação de Gombrich em que concluía que arte e artistas, tal coisa não existe, existe sim pessoas com aptidão para manipular linhas, formas e cores e que se deixam levar pela inquietude de tentar procurar ir sempre mais para além do horizonte.

Nunca mais aprendo que entre professores não convém mostrar sapiência.

De qualquer maneira, a formação vale pela oportunidade de discutir conceitos que no dia a dia de trabalho passam longe (e no meu caso, com as tic a apertar, a distância começa a ser demasiado grande). E por momentos mágicos como o de esta manhã, na Basílica de Mafra. Enquanto o grupo seguia o formador que ia apontando a volumetria da estatuária, deixei-me derivar (o situacionismo é por demais influente) até começar a ouvir o organista que, numa sessão de ensaio, brindou todos os presentes com um concerto improvisado no orgão da basílica. Ali, debaixo do esplendor barroco, o orgão soltou notas de música composta quando os mármores do convento ainda estavam a ser assentados. São pequenos momentos como este que dão sabor à vida.