quarta-feira, 8 de julho de 2009

Desculpe, mas...



... não pode.

Dia de formação. Manhã passada em visita ao parque dos poetas, em Oeiras, considerado uma mais valia do concelho. Não fiquei impressionado. Pelos padrões, o local era perfeito. Arquitectura cuidada, jardinagem judiciosa e escultura aprimorada. Mas fiquei com um terrível sentimento de esterilidade. O parque era bonito de uma forma planeada, e as esculturas dos poetas, ex-libris e mote do parque, obras artísticas de valor. Mas... talvez o ar aberto do espaço, talvez... não sei. Senti-me num espaço vazio de conteúdo, apesar das intenções, que mal disfarçava ser um buraco no meio de um subúrbio urbanizado e desorganizado. O pormenor mais interessante do parque era um edifício empresarial que estava no exterior.

Futuros historiadores de arte apelidarão grande parte da arte contemporânea de novo classicismo: um estilo deslavado, que se socorre das vanguardas do século XX para o seu estilismo mas que na prática funciona num formalismo rígido e estéril, sustentado por magotes de artistas menores que pretendem elevar a sua normalidade ao estatuto de grande arte. Curioso é o espírito de rebeldia institucionalizado que de rebelde tem muito pouco. O parque dos poetas glorifica, vive dessa atitude pretensiosa. Talvez por isso me teixa deixado tão indiferente.

Almoço num simpático restaurante de Oeiras, bem regado e atestado com uma aguardente velha. Justifiquei o néctar com uma certa necessidade de dèrive situacionista.

Tarde numa exposição de obra gráfica de Dali, na galeria municipal de Oeiras. Edifício com um restauro admirável. Fiquei mais fascinado pela construção do que pela exposição. Irrita esta sensação de antiguismo. Arte, para uma certa intelligentsia que se move na dinamização cultural, parece ter parado nos anos 20 do século passado. Fala-se em Dali ou Picasso, e os sorrisos abrem-se. Fala-se em Rauschenberg ou Hirst, e os olhares ficam vazios e a conversa é logo mudada de direcção. Ultrapassa-me como se podem dizer renovadores enquanto repetem fórmulas já a ficar centárias.

O momento caricato: fui apanhado em flagrante delito enquanto fotografava algumas das obras expostas. "Desculpe, mas não pode fotografar, são as ordens que temos". Mas esperem, estou numa galeria pública, construída com dinheiros públicos, a visitar uma exposição paga com dinheiros públicos, dinheiros esses que saíram do erário público, erário esse que se constroi com os nossos impostos, algo a que eu não me posso escapar. E sou proibido de fotografar dentro de um espaço destes para proteger direitos de autor... que já paguei, ao pagar os meus impostos. De manhã tinha falado aos meus colegas da ilegalidade de mostrar imagens, filmes e música aos nossos alunos, feita sempre sem permissão dos detentores dos direitos. Ninguém acreditou. À tarde alguns viram como são as coisas na realidade.

Mas quem me avisou não tem culpa destas parvoíces e estava apenas a fazer o seu trabalho. Para além disso era jovem e bonita, o que desarma qualquer homem que começa a ver a crise dos quarenta a ficar próxima. Virei-me para ela, com o meu sorriso mais engatatão, e disse-lhe "bem, vamos fingir que você não reparou e a partir de agora porto-me bem". Se fosse um gorila de uma qualquer empresa de segurança teria possivelmente menos sorte. A menos que o homem fosse amante de homens menos musculados, Aí talvez houvesse condescendência.