terça-feira, 16 de maio de 2006

Em jeito de resposta

Quando ruminei sobre as implicações filosóficas das novas descobertas que ligam a genética aos comportamentos recebi uma resposta fabulosa, que discordava do meu ponto de vista, e me apontava que as minhas ideias eram algo exageradas. Ora, aqui tenho de concordar. Da maneira como escrevi, fiz transparecer que o comportamento humano é meramente determinado pelas manigâncias biológicas. Sob esse ponto de vista, não passaríamos de marionetes que se moviam de acordo com os códigos bioquímicos e as influências hormonais, desprovidos de qualquer vontade própria ou livre arbítrio (ou então com algum gene que simulará um livre arbítrio virtual).

Mas não é nada disto. Se há uma coisa que este nosso complexo mundo de maravilhas científicas nos ensinou, é que a realidade é altamente complexa. Existem míriades de causas para míriades de efeitos, e algo tão elaborado como uma personalidade humana é o produto de demasiados factores para poder ser quantificado em termos simples. Posto de outra forma, não há contrastes de preto e branco; há milhões de tonalidades que se influenciam. O que somos é simplesmente o produto das nossas aprendizagens, das nossas escolhas, das nossas influências e... dos factores genéticos e biológicos que influenciam os nossos comportamentos.

Como professor, deparo-me por vezes com uma situação revoltante: a de alunos que com tenras idades já estão dependentes de medicamentos psicoactivos. Mas o que me revolta é sentir que tudo aquilo em que acredito, que o nosso comportamento é ditado pela nossa força de vontade, é abalado ao ver que o tomar de um medicamento correcto é extremamente eficaz para melhorar a qualidade de vida de crianças hiperactivas ou com outros síndromes igualmente tenebrosos (claro que estou a falar de verdadeiros casos de hiperactividade, não de crianças perfeitamente normais e ladinas como as crianças normais o devem ser a que lhes é diagnosticada um mal psicológico só para entreter a bolsa dos pais).

De maneira que mantenho a minha premissa: quanto mais nos embrenhamos no conhecimento a fundo da nossa biologia, mais abalada fica a crença numa dicotomia homem-natureza, em que a vontade humana reina suprema sobre os nossos impulsos biológicos.