domingo, 9 de abril de 2006

A Guerra dos Mundos

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IMDB | The War of the Worlds (1953)
Wikipedia | The War of the Worlds (1953)

O livro clássico de H. G. Wells, uma das pedras basilares da ficção científica, é possivelmente a obra deste género literário mais conhecida do grande público. Embora os detalhes escapem àqueles que não a conhecem bem, todos conhecem a história da grande invasão das máquinas mortíferas vindas de marte, máquinas invencíveis que aniquilavam as grandes armas da humanidade com o seu raio da morte. H. G. Wells merece, e bem, o título de avô da ficção científica (muito mais do que Júlio Verne). Muitas das suas obras inspiraram e deram origem a verdadeiros sub-géneros da ficção científica.

É certo que todos conhecem A Guerra dos Mundos, embora, como já referi, os detalhes sejam mais difusos. No seu original, a A Guerra dos Mundos mistura crítica social ao sistema de classe britânico, acoplado a um profundo sentimento de desprezo pela hubris da humanidade do final do século XIX. Na altura de maior triunfo do homem branco, quando todas as fronteiras terrestres se encontravam sob domínio colonial e as novas fronteiras da ciência prometiam um futuro brilhante, eis que surge um escritor com uma história em que o maior e mais poderoso império à face da terra é vergado em poucos dias por alienígenas com uma tecnologia vastamente superior - e um desprezo profundo pelo ser humano (de certa maneira, precisamente o que os ingleses faziam aos nativos das terras do seu império). Aquilo que derrota os alienígenas não é uma nova e brilhante arma saída das mentes sapientes dos grandes cientistas, mas sim os humildes vírus e bactérias. O grande exército britânico foi fácilmente destroçado pelos raios da morte e pelo fumo negro das máquinas trípedes dos marcianos. Estes, após dominarem toda a inglaterra, sucubem, mortalmente doentes, incapazes de resistirem às mais comuns doenças terrestres.

A Guerra dos Mundos é talvez uma das obras mais adaptadas a vários media. A sua mais famosa adaptação é a de Orson Welles, cujo folhetim radiofónico lançou o pânico na américa dos anos vinte (curiosamente, no Portugal dos anos setenta uma rádio local repetiu a brincadeira de Welles - precisamente com os mesmos resultados... omnia mutantur, nihil interit). As mais recentes adaptações incluem o scherzo de Alan Moore na sua Liga dos Cavalheiros Extraordinários, cuja última aventura consiste em combater a invasão marciana, e a adaptação de Spielberg, que eu não me dei ao trabalho de ver. Isto, claro, sem mencionar as inúmeras obras que de uma forma ou outra retiram elementos ao clássico A Guerra dos Mundos.

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A minha adaptação cinematográfica favorita é a versão de George Pal, realizada em 1953. Esta versão de A Guerra dos Mundos é o perfeito cruzamento entre filme de ficção científica de série B e filme clássico de FC. Pal, seguindo o exemplo de Welles, actualizou o enredo do clássico. Em vez da Inglaterra do virar do século, a acção desta A Guerra dos Mundos desenrola-se na Califórnia, onde Clayton Forrester, um cientista, assiste à chegada dos primeiros meteoros marcianos. As tentativas de contacto revelam as intenções hostis dos marcianos, bem como as fabulosas armas que têm ao sei dispôr. A visão de George Pal altera a tónica deste filme apocalíptico. A sua vertente de crítica social é substituída pelo misticismo, presente na figura de um padre que perante um primeiro ataque das forças terrestres decide arriscar a vida para falar com os marcianos - acção com óbvios resultados. a bíblia é impotente perante os raios da morte...

A sobrinha do padre, Sylvia Van Buren, representa neste filme o interesse amoroso de Clayton, cientista prototípico cujo visual irá inspirar, anos mais tarde, um filme-pastiche às voltas com A Guerra dos Mundos: o Dia da Independência. A personagem que Jeff Goldblum representa, o cientista sabido mas rebelde, parece ter sido fotocopiada deste Clayton Forrester dos anos 50 (o que representa não plágio, mas uma homenagem).

A acção de A Guerra dos Mundos corre conforme o previsto. Os grandes exércitos da Terra são impotentes para travar o avanço inexorável dos alienígenas. As armas atómicas revelam-se ineficazes, e as tentativas de bombardear as posições marcianas com asas voadoras (uma versão dos anos 40 do superbombardeiro B2 que exisitiu realmente - é uma das experiências de Glenn Northrop na construção de aviões que são meras asas voadoras) torna-se inútil perante os invisíveis escudos marcianos (quem viu o Dia da Independência já está de certeza a lembrar-se de cenas semelhantes). O apocalipse rola sobre a Terra - as grandes cidades da europa sucubem perante as naves marcianas, e, na américa, quando os marcianos se aproximam de Los Angeles, o caos e as pilhagens desfazem qualquer esperança de defesa. Clayton tinha tido tempo de perceber que o sangue dos marcianos era estranhamente anémico, uma peça de informação que poderia ser vital para a defesa da Terra, mas o caos e a humanidade sem lei nem ordem destroi as suas pesquisas quando o seu laboratório é evacuado.

O filme termina com a cidade de Los Angeles a ser arrasada pelos raios da morte lançados pelas naves marcianas. Nos últimos momentos, os sobreviventes abrigam-se numa igreja, rezando pelas suas vidas. Aí, as naves marcianas começam a despenhar-se. Sabemos que a causa foram as bactérias terrestres, mas o filme é ambíguo, e deixa no ar sugestões de intervenção divina.

Esta versão de A Guerra dos Mundos é um perfeito clássico. Reúne o essencial da obra de H. G. Wells, sem a desvirtuar, e constitui também um exemplo do modelo de cinema B dos anos cinquenta - com o cientista, a mulher que se apaixona pelo cientista, e a ameaça fantástica que só o cientista pode travar. É um modelo repetido com maior ou menor sucesso em incontáveis filmes da época (como o Earth vs. The Flying Saucers, com efeitos especiais do inimitável Ray Harryhausen). É certo que é previsível. É certo que se vêem os fios que seguram as naves espacias - Albert Nozaki criou efeitos visuais brilhantes, mas sem o perfeccionismo de um Harryhausen. Em suma, esta versão de A Guerra dos Mundos, pelo que representa, e pelo que ainda influência, é um clássico a não esquecer.