quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Cidadão Sem Sombra


João Ventura (2025). O Cidadão Sem Sombra. Chão de Couce: Editorial Divergência.

Temo que me vá repetir. João Ventura é o nosso mais exímio praticante da arte do conto curto.  Quem conhece a sua longa obra já o sabe bem, e basta ler Tudo Isto Existe, a primeira antologia da sua ficção fixa em livro pela Divergência, para o sentir. Este Cidadão Sem Sombra dá continuidade ao trabalho do primeiro livro, coligindo mais excelentes exemplos das pérolas linguísticas que são os seus contos.

Para além da concisão, por vezes levada a um nível extremo - alguns dos seus contos não passam de curtas frases, João Ventura é também dono de um espírito crítico fortíssimo. A sua ficção tanto se faz de profunda ironia, como de genais desmontagens de lugares comuns ou ideias injustas, bem como  um profundo faro para revelar a estupidez. Não quero com isto dizer que seja panfletário, mas uma das características mais perenes dos seus contos é a forma como desmonta o tipo de ideias feitas que o constante ruído digital nos assola.

Junte-se a isto uma vertente de realismo mágico e fantástico, com um profundo olhar para o mítico e surreal. O resultado pode ser lido online, nas várias curtas e microficções que espalha por aí, ou nas duas fortemente recomendáveis edições dos seus contos.