terça-feira, 20 de outubro de 2026

Do General ao Cabo mais Ocidental


Álvaro Guerra, Cruzeiro Seixas (1976). Do General ao Cabo mais Ocidental. Lisboa: Afrodite.

São estes acasos que me dão o gosto de dar um salto à feira da ladra, e vasculhar os feirantes que vendem livros. Não sou colecionador compulsivo que tenta completar as coleções editoriais ou ter todos os números de antigas revistas (e não critico quem o faça). Prefiro procurar o inesperado, livros que para mim são agulhas não planeadas num vasto palheiro. Não é comum acontecer, mas de vez em quando tenho sorte. Este foi um desses achados.

Confesso, comprei o livro por causa da capa. Foi logo o primeiro pormenor, com este desenho de Cruzeiro Seixas. Vi a editora, a lendária Afrodite de Ribeiro de Mello, e o nome do escritor foi um pormenor a que mal liguei. O interior mostrava-me um texto poético, e mais ilustrações do surrealismo clássico de um dos grandes nomes da arte portuguesa da segunda metade do século XX. Decisão imediata de compra.

O texto é um longo poema, reflexão desencantada e crítica da mentalidade de um país acabado de sair da ditadura, com o peso da história e, especialmente, das suas apropriações propagandísticas. Há um desencanto com a modernidade nascente, e apesar de ser um texto escrito naqueles anos utópicos do pós-25 de abril, não o senti muito esperançoso com os novos rumos que se abriam, apesar de celebrar a liberdade. O poema é de Álvaro Guerra, escritor e jornalista vilafranquense. 

Uma nota curiosa: ao investigar online sobre o autor, que, confessando-me ignorante, desconhecia por completo, vim a descobrir esta edição nos alfarrabistas online, com preços entre os 25 a 40 euros. A compra na feira ficou-se por 10. Leiam isto como um mero pormenor, não ando à caça de pechinchas literárias com valor elevado nas bancas da feira da ladra. O que me interessa nos livros é a sua leitura, e o prazer de uma boa descoberta.