quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Homem da Nave


Aquilino Ribeiro (1968). O Homem da Nave. Lisboa: Livraria Bertrand.

Ler estas obras de Aquilino, entre a ficção, o retrato e o ensaio, é regressar a um Portugal que, apesar de relativamente recente, hoje já não existe. As descrições aquilinianas, feitas num dealbar da modernidade, falam-nos de terras e povos de carácteres, hábitos e costumes centenários, talvez milenares, apesar da intrusão progressiva de modernismos como estradas, automóveis, luz elétrica e a velada opressão política do estado novo. As paisagens ainda existem, embora irremediavalmente transformadas pela evolução que fizemos nas últimas décadas do século XX. Tempos que pese embora a sua imperfeição, alfabetizaram as populações, modernizaram a saúde e habitação, transformaram as economias de subsistência rural.

Num pormenor curioso, Aquilino ergue o dedo acusador contra a desflorestação trazida pelas monoculturas, que relata ter efeito nefasto sobre a vegetação e animais da serra. O que hoje chamamos de biodiversidade, e que o mestre Aquilino era tão genial a invocar na sua prosa complexa e sabida.

O livro leva-nos aos povoados, pessoas e paisagens serranas da Serra da Nave, um altiplano no nosso interior profundo. Todo o livro é um elogio ao homem e à natureza, feito de relatos entrecortados. Cada capítulo reserva-nos uma surpresa - pode ser um retrato, ficcional ou real, das gentes e dos seus modos. Ou pode ser uma divagação bucólica pelas invocações da natureza, das cores do outono, a vivacidade da primavera, o peso do estio. Por vezes é ensaio étnico e social, outras, apontamento sobre a intrusão da modernidade ou os choques entre as novas sensibilidades culturais urbanas e as tradições centenares dos serranos.

As geografias lá continuam, como sempre estiveram, os povos e a paisagem humanizada alteraram-se. As memórias de Aquilino tornam-se um memorial a um passado recente que muitos, hoje, não guardam memória.