domingo, 18 de julho de 2021

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 Esta semana, destacamos lançamentos de Ballard, conversas com autores portugueses de ficção científica, e rever as conotações da obra de Heinlein. Fala-se de arte e inteligência artificial, do mapa 3D do córtex humano, e de impressão 3D subaquática. Ainda se olha para a ligação entre cães e humanos, a história do serial killer parisiense durante a II Guerra, e prazeres culposos em vídeo. Mais leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop


Orwell: As obras deste autor estão a cair em domínio público e é ver as editoras a desmultiplicar-se em novas edições e adaptações. Nem a biografia do autor escapa. Efeitos secundários da legislação sobre direitos de autor, sublinhando que para cada Orwell que chega ao domínio público, há uma legião de obras orfãs que ficam definitivamente esquecidas.

Pentagrama, de Rodolfo Mariano: Um projeto de BD independente, com uma vertente contracultural.

Starship bloopers: Desta não estava à espera, um desafio à ideia da obra de Heinlein como de raiz fascizante, sublinhando que a ironia do autor é mal interpretada e usada como base para os sonhos húmidos dos amantes de autoritarismos.

Uma das histórias: Da ficção científica que, lamentavelmente, nunca chegou a ser escrita.

Novidade: Olá América – J.G. Ballard: A edição portuguesa de um dos romances clássicos de Ballard, um hino decadente e surrealista à iconografia e significados da ideia de América.

Heroes Reborn #4 Review: The Worst Thus Far: De facto, este mega evento Marvel que recupera personagens que a editora não tem usado, para contar a história de um universo alternativo com personagens Marvel muito diferentes das mais icónicas da editora, não se tem pautado por ser especialmente interessante.

Strange Adventures #10 Review: Let's Make A Deal: Tom King é um dos melhores argumentistas do momento, com um trabalho excelente na DC. Mas as suas mais recentes séries parecem um pouco aquém do que é capaz. Rorschach desvia-se imenso do material base, sem se perceber ainda qual a lógica, e em Strange Adventures está a recriar o mais clássico dos science fiction heroes dos comics. De uma forma perturbadora, bastante morna até ao mais recente capítulo, onde King nos mostra que os heróis mais perfeitos são capazes de compromissos com os seus piores inimigos, para salvar aqueles que gostam. Com genocídios pelo meio, porque estamos a falar de Tom King, cujos argumentos nos falam também sobre as lógicas da geopolítica.

Celebrating Over Four Decades of Old-School Horror from Troma Entertainment!: Recordar a Troma, esse estúdio de produção famoso pela forma como gosta de se exceder no trahs cinema, daquele que é tão mau, tão mau que se torna bom. Hey, faço parte daqueles que consideram Toxic Avenger como uma obra prima do cinema, mais digna de ser vista do que muitos filmes oscarizados.

Rascunhos na Voz Online – Com António Ladeira: Uma conversa com António Ladeira, um discreto mas promissor nome da literatura de ficção científica portuguesa.

Mais infos sobre o filme de Demon Slayer: Uma estreia em cinema de animé, algo muito raro por cá. Se bem que suspeito que se torne cada vez mais disseminado. Os fãs mais novos de fantástico são apaixonados pela cultura pop japonesa, ou seja, há aqui mercado para explorar. Como fã omnívoro que sou, só digo, venham eles, que são excelentes desculpas para ir ao cinema.

Urbanista: os prós e os contras de uma cidade instagramável: Confesso que achei inadvertidamente divertido este artigo sobre a "instagramabilidade" da cidade de Lisboa. Bem, até parece que antes do aparecimento do Instagram, não existia tal coisa como fotografia, nem a cidade era adepta das lentes das reflex ou instantâneas...

A Caçada – Enki Bilal e Pierre Christin: Recordar um dos melhores álbuns de sempre da banda desenhada francesa, embora com uma temática que o devir da história se encarregou de desvanecer das memórias. Há uma certa dissonância cognitiva na recensão, pegando neste clássico face à estética posterior de Bilal. Na verdade, aqui temos de olhar para Bilal como ilustrador, e dar primazia ao trabalho de Christin e à sua leitura sobre os jogos políticos do Leste europeu dos anos 70.

Tecnologia


Re:Humanism. Using AI to question anthropocentrism: Refletir sobre inteligência artificial é especialmente enriquecedor se usarmos a arte como forma de questionar a tecnologia. Estes projetos cruzam os aparentemente diferentes domínios artísticos e tecnológicos, usando inteligência artificial como elemento estético.

Historical Hackers: Ctesibius Tells Time: Ver a invenção da clepsidra como forma de hackear parece algo bizarro, mas recordem-se, daqui a 100 anos, quantas das nossas deslumbrantes novas tecnologias de hoje vão estar tão banalizadas que já ninguém repara nelas?

Do You Want AI to Be Conscious? - Issue 102: Hidden Truths: E será que sabemos o que significa consciência? Qual sua lógica, que vantagem evolucionária nos deu? Haverá formas de simular, ou dotar algoritmos de tipos de introspecção?

Method lets AI create better original images: Há sempre algo de estranho nas imagens geradas por algoritmos de inteligência artificial, por muito realistas que sejam. Este método modifica a aprendizagem automática para garantir resultados ainda mais realistas.

Your next laptop may come with a cryptominer, courtesy of Norton: É talvez o truque de marketing mais inesperado. Instale um anti-vírus, e use o seu computador para minerar criptomoedas. Algo que tanto pode ser uma boa ideia, como um risco de segurança, porque a moda irá pegar, e nem todos os que irão oferecer este tipo de soluções estarão no lado mais legal do espectro das criptomoedas.

A Browsable Petascale Reconstruction of the Human Cortex: Este dataset permite visualizar e simular uma secção do córtex cerebral em 3D, a partir de amostras de tecido cerebral. Uma forma de conhecer melhor o nosso cérebro.

Kyriaki Goni. Speculating on climate crisis, interspecies relationships and AI: Reflectir, através da arte, sobre as transformações trazidas pelas tecnologias avançadas.

Have autonomous robots started killing in war? The reality is messier than it appears: De facto, o relatório onde os jornalistas estão a ir buscar a ideia que os drones já abatem humanos de forma autónoma, não é muito direto sobre o assunto. Ou seja, é um erro assumir isso como um facto incontestável, o que podemos assumir é a possibilidade de isto ter acontecido. Com elevada probabilidade de realmente ter acontecido, guerras civis raramente se regem por padrões éticos. Mas há um tipo de arma de ataque autónomo que já faz há muito parte dos arsenais: as chamadas loitering munitions (munições vadias é boa tradução?, armas que depois de disparadas se mantém no ar até detetarem um alvo. Não são exatamente drones totalmente autónomos, mas também atacam sem intervenção humana.

Microscopists Push Neural Networks to the Limit to Sharpen Fuzzy Images: Para que servem os algoritmos de inteligência artificial aplicada à imagem? Esta é uma excelente resposta, para melhorar a nitidez das imagens do infinitamente pequeno.

Toward Generalized Sim-to-Real Transfer for Robot Learning: Combinar simulações e aprendizagem automática para treino eficaz de robots para atuação em situações reais.

The clothing revolution: Uma visão inesperada sobre o que motivou o desenvolvimento humano. Terá sido o desenvolvimento do vestuário o que provocou o desenvolvimento da agricultura e sedentarização dos primeiros homens? De facto, desenvolver o vestuário como tecnologia para sobreviver em climas agrestes pode ter sido uma das faíscas que levou à sedentarização. Infelizmente, não sobram muitas roupas da pré-história em vestígios arqueológicos, o tempo não é clemente com estes objetos.

Electric Ink Analysis: Os ecrãs de tinta digital encontraram o seu nicho enquanto dispositivos de leitura, mas recentemente têm surgido ofertas no mercado que os posicionam enquanto dispositivos de produtividade. Estará esta tecnologia capaz de nos oferecer a experiência fluída de outras, já estabelecidas no mercado?

The history of space exploration in 15 images: Aquela sensação que, de facto, este lado entusiasta da exploração especial é história.

Can We Ever Trust A Recorded Image Again?: Bem, será que alguma vez pudemos confiar em imagens? O problema da manipulação não é novo, antecede em muito as capacidades das modernas tecnologias de transformação de imagem. E nem sequer precisamos de ter tecnologias complexas - as manipulações mais eficazes fazem-se pelo enquadramento, pela perspetiva, pelo enviesamento através daquilo que se escolhe mostrar.

The best logistics games that make supply chains fun (no, really): Porque, de facto, o são. Todo o campo dos jogos de simulação e jogos sérios permite simplificar aprendizagens e perceber como funciona o complexo.

Underwater 3D printing to be rolled-out in 2022?: Já não há muito que surpreenda no mundo da manufatura aditiva, a tecnologia está a amadurecer e a normalizar-se nos seus contextos. Agora, técnicas de impressão em ambiente submarino são, tanto quanto sei, uma ideia completamente nova.

What about a national packet-switched drone delivery network: Intrigante, e uma verdadeira internet das coisas. Repensar fluxos de distribuição de forma similar ao roteamento digital, com drones e veículos autónomos.

Mastershot es un editor de vídeos online, que sólo hace una cosa y la hace bien: Simples, gratuito e sem marcas de água, este editor de vídeo promete ser uma excelente ferramenta.

Apple’s RealityKit 2 allows developers to create 3D models for AR using iPhone photos: Destaco isto porque, essencialmente, a Apple incorpora fotogrametria nas suas ferramentas de desenvolvimento para realidade aumentada. Já estou a ver os apple fanboys, a apontar que a empresa da maçã dentada desenvolveu uma enorme inovação que permite criar 3D a partir de fotografias; e o resto do mundo a encolher os ombros, apontar que é apenas mais uma implementação da fotogrametria, mas sem se chatear muito com isso que os apple fanboys não aceitam muito bem desafios à sua visão do mundo.

Everything Is Overcomplicated: Um pequeno erro de configuração mandou abaixo boa parte dos principais sites. Sublinha as infraestruturas invisíveis de que depende o nosso mundo digital, só reparamos nelas quando falham.

Jeff Bezos Says He’s Going to Space in About a Month: Um caso típico de "bolas, quem paga as contas sou eu, por isso tenho o direito a ser o primeiro a brincar".

DitherPaint: a 1-bit, browser-based drawing application: Para quem procura nostalgia, ou estéticas muito, muito retro.

Modernidade


Scientists know these things: Sim, voa, mas o voo é curto.

When ISIS Made Off With A Magritte Nude (Which Made It Back Intact!): Da ligação entre o crime artístico e o financiamento do terrorismo. O roubo de um quadro de Magritte revelou uma ligação ao financiamento de ataques terroristas na Bélgica.

Mary Beard: Ancient Rome Never Disappoints: Do nosso fascínio com a Roma antiga, das comparações que fazemos com o império, e da necessidade de uma visão crítica que não nos cegue para as realidades históricas.

Puppy Experiment Shows How Dogs Connect With Humans From Birth: Bem, como assumida dog person que sou, derreto-me com estes estudos. É curioso pensar que a capacidade empática dos cães com os humanos se possa ter tornado um traço genético hereditário.

How Memory Works: Falível, intrinsecamente biológica, e possivelmente manipulável.

The Traveler and His Baggage: Começa com o que parece ser uma história simpática sobre redes de ajuda à fuga de judeus e outros refugiados do nazismo na Paris ocupada, mas depressa nos leva a um dos casos policiais franceses mais célebres de sempre, com as façanhas do médico e assassino em série Petiot.

THE GREATEST ACHIEVEMENTS IN DUMB INTERNET VIDEO: Vá, confessem, é um prazer culposo, mas um prazer. Quem nunca perdeu uns minutos a gargalhar perante um vídeo daqueles mesmo idiotas? Tomem lá a fina flor destes hinos à estultícia. Não precisam de me agradecer.

Author Naomi Wolf Spreads So Many Anti-Vaccine Myths That She’s Banned From Twitter: Fiquei espantado com esta notícia, e desiludido com este resvalar de uma autora crítica, cujas visões sobre os excessos do capitalismo e consumismo são fundamentais para se perceber o mundo contemporâneo. Cair em teorias da conspiração e resmungos anti-ciência é algo inesperado, que ainda por cima tem o condão de servir de argumento para questionar a validade de outros trabalhos.

The “Lab Leak”: It’s Not Enough to Say Accidents Happen - Facts So Romantic: A teoria de que a origem da pandemia teria sido num acidente laboratorial parece estar a voltar à baila, promovida por critérios jornalísticos duvidosos. Mais interessante do que isso é o porquê de querermos tanto uma explicação destas. É confortável e simples. Perceber que esta pandemia está relacionada com a complexidade da relação entre a natureza e o antropocénico, numa consequência de problemas tão díspares como aquecimento global, sustentabilidade e pressão urbana, é bem mais difícil.

5 comentários:

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Sobre Naomi Wolf... obviamente, ela não caiu «em teorias da conspiração e resmungos anti-ciência» - apenas coloca questões relevantes porque não é (felizmente, ao contrário de outras pessoas) uma «maria-vai-com-as-outras»:

https://www.breitbart.com/politics/2021/06/27/feminist-naomi-wolf-biden-admin-democrats-big-tech-unholy-marriage/

Sobre a teoria do acidente, ou fuga, laboratorial... pode-se pois afirmar que a CNN tem «critérios jornalísticos duvidosos»?

https://www.breitbart.com/clips/2021/07/16/cnn-senior-biden-officials-believe-covid-lab-leak-theory-deeply-credible-and-at-least-as-credible-as-natural-origin-theory/

Acreditar que a pandemia teve origem numa transmissão «natural» num mercado em Wuhan está ao mesmo nível de acreditar que no fim de cada arco-íris há um pote de ouro.

Artur Coelho disse...

Algo me diz que antes da Wolf pirar dos neurónios, as suas críticas duras e profundas ao neoliberalismo não seriam do teu agrado. E, btw, citar o breitbart como fonte fidedigna de informação? Credo, que confusão vai nessa cabeça...

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

O que é esse «algo»? A sua precipitação preconceituosa? Não interessam, não estão em causa aqui e agora, as minhas eventuais diferenças com Naomi Wolf e outras pessoas como ela. O fundamental é que eu defendo o direito de ela(s) se expressar(em) livremente (com excepção, obviamente, de incentivos à violência) sem ser(em) censurada(s) ou de outras formas prejudicada(s). O que também o inclui, AC: crê que está a salvo de um possível «cancelamento»? Desengane-se.

E qual é o problema de citar o Breitbart? Sim, é uma fonte fidedigna de informação. Acaso já foi demonstrado que divulgasse notícias falsas de um modo deliberado e sistemático? Claro que não, muito pelo contrário: o «crime» dele e de outros sítios semelhantes é o de difundirem «verdades inconvenientes» para a esquerdalha. Devia consultá-lo regularmente - talvez aprendesse alguma coisa. E, no caso em apreço, repito que se limitou a reproduzir o que foi revelado pela CNN. Esta, volto a perguntar, tem «critérios jornalísticos duvidosos»? Sim, vai uma confusão numa cabeça, mas não é certamente a minha.

Artur Coelho disse...

Só o usares a palavra "esquerdalhada" já demonstra bem o teu nível de polarização, alimentada pelo chafurdar nos amplificadores de fake news tipo breitbart, onde a opinião acéfala se substitui aos factos. Também aprecio a postura de escudo de defensor da liberdade de expressão, desde, claro que seja o teu tipo de expressão... mas estás à vontade para me cancelar. Como opero no mundo real, o que faço não se resume a arrazoar palavras e recordar velhas glórias de um passado que não regressará. No que toca à pandemia, aquilo que para ti são confortáveis teorias da conspiração, fixes para elucubrações delirantes, são para mim realidades com que tenho de lidar no terreno. Quando começas a ver crianças a adoecer que nem tordos, percebes até que ponto breitbartismos ou alucinações naomistas são, pura e simplesmente, estupidez pura. Isto é como a matemática. Até podes querer que 2+2=5, mas não dá.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Creio que terá sido, precisamente, até ao dia 26 (de Julho) que fui «espreitando» esta «posta» a ver se existiria mais uma resposta. Pois, deveria tê-lo feito mais um dia… O certo é que, regressado de férias, me ocorreu voltar aqui, porque, sabendo bem o que «(est)a casa gasta», seria muito provável que encontrasse mais uma série de dislates, mesmo que colocados bastante tempo depois. E a minha intuição confirmou-se.

Enfim, vamos despachar isto. Porém, antes do conteúdo, a forma. Quem é que lhe deu autorização para me tratar por «tu» (porque eu não fui)? Que raio de «intimidade» vem a ser esta? Mostre um módico de respeito e de boa educação ou não serei tão comedido da próxima vez (isto é, se houver próxima vez).

Sobre o conteúdo, você continua a repetir-se, a equivocar-se (escrevi «esquerdalha» e não «esquerdalhada»), a «arrazoar palavras» (sim, você, não eu), a fazer acusações que não demonstra com exemplos reais. «Fake news tipo Breitbart, onde a opinião acéfala se substitui aos factos»? Prove-o. «A (alegadamente minha) postura de escudo de defensor da liberdade de expressão, desde, claro que seja o (m)eu tipo de expressão»? Prove-o; aliás, esta segunda atoarda (e projecção) é de tal modo insultuosa que, noutros tempos, poderia justificar um par de «bengaladas»… quanto mais não seja porque eu, sim, já fui várias vezes alvo de censura e de discriminação.

No entanto, e em última análise, o que mais se torna evidente é que você é um mal-agradecido: alguém além de mim costuma, com alguma regularidade, comentar aqui, animar esta baiuca? Talvez seja melhor eu dar as minhas «pérolas» (de sabedoria e de retórica) a outros.