quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

La Puerta

 

Manel Loureiro (2020). La Puerta. Madrid: Planeta.

Uma mulher desesperada, que está a ver o filho morrer de cancro terminal, recorre ao único remédio que lhe resta - a crença na tradição. Descobre, via internet, uma curandeira galega que parece ter sucesso onde a medicina falha. Arrisca tudo, deixa o seu lugar numa unidade policial de elite em Madrid e transfere-se para uma esquadra na zona do interior da Galiza. Onde depressa se vê envolvida numa conspiração obscura, que a leva a questionar a realidade do que vê. Na verdade, foi atraída a uma armadilha, caindo no centro de uma tradição milenar.

Tudo se centra nas ruínas megalíticas de uma serrania, conhecidas na tradição como a porta do além. Durante todo o livro, somos levados a um arrepiante mergulho entre tradição e sobrenatural. Sentem-se presenças malévolas, e pacatos camponeses galegos que, na verdade, seguem fielmente uma tradição de séculos, sacrificando ritualmente uma vítima de doze em doze anos. Aparentemente, para preservar a sua longevidade, mas como irá descobrir a amarga protagonista, o que realmente obriga os assassinos a matar é o respeito por uma tradição de sacrifícios de sangue, não para causar o mal, mas para o travar no antigo portal celta. Tradição essa que a potencial vítima se verá obrigada a continuar.

Manel Loureiro mistura as tradições galegas com um belíssimo thriller onde o sobrenatural e o policial se cruzam. O ritmo é marcado, e o livro é daqueles que não se descansa até chegar ao fim. A trama é urdida sempre aguçando o interesse, e os caminhos narrativos levam a um final inesperado. Para além disso, sobressai a omnipresente paisagem invernosa do interior galego, onde nas aldeias isoladas subsistem crenças e tradições que datam de tempos longínquos. Lendas de que o escritor se apropria, com a devida  vénia, para nos contar uma belíssima história de terror.

E sim, confesso que as descrições de um solar numa aldeia isolada, cuja cave guarda um segredo malévolo, rituais nos cruceiros, ou revelações discretas de potencial imortalidade, e os vislumbres da santa companha,  sempre sob pesada chuva, me causaram alguns arrepios.

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