segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A Recriação do Mundo


Luís Corredoura (2019). A Recriação do Mundo. Lisboa: Cultura Editora.

Luís Corredoura surpreendeu os leitores de FC em português com o seu primeiro romance, Nome de Código Portograal. Este escritor surpreendeu ao abordar uma vertente rara no fantástico nacional, a história alternativa. Nos seus livros seguintes, optou pelo registo entre o policial noir e a aventura de agentes secretos. Livros divertidos, mas já longe do lado ficção científica que despertou a atenção sobre este autor. Com a Recriação do Mundo, Corredoura regressa a dois campos: à história alternativa, e à II grande guerra, que parece ser um dos seus fascínios.

Caveat lector: o profundo gosto que Corredoura tem por esta época histórica é um dos problemas deste livro. Uma parte muito significativa é um longo infodump em que coloca em jogo as suas personagens, enquandrado-as nos acontecimentos históricos. A sabedoria é enciclopédica, mas aqueles longos parágrados sem pausa requerem um esforço de leitura. Que irá ser compensado na segunda metade do livro, quando Corredoura abandona o didatismo e se dedica a recriar a história do século XX.

O outro grande problema deste livro é que pretende ter como pivot as aventuras de um personagem português, judeu comunista que se vê lançado para o centro das pesquisas nazis, e posteriormente americanas, sobre a construção de armas atómica. No entanto, ao longo da leitura, este personagem acaba por ser mais periférico do que fio condutor. Corredoura compraz-se, e muito bem, em usar personagens históricas como os elementos que realmente impulsionam a narrativa. Fá-lo com óbvio gosto, e isso torna o romance ainda mais interessante. A história do matemático aventureiro português, mesmo que de vez em quando Corredoura se lembre dele para criar pontos chave na narrativa, acaba por ser um distante enredo secundário.

Ainda apontaria um terceiro problema a este livro, a curiosa propensão de Corredoura para caraterizar as suas personagens femininas com o apetite sexual voraz das fantasias adolescentes. Algo que já não se enquadra nos padrões contemporâneos da ficção. Diga-se que nisto, o livro é um verdadeiro festim de salsichas, mas nisto está apenas a ser fiel à história. Não a narrativa, mas a dos factos do século XX.

Agora que deixámos os problemas do livro de lado, falemos daquilo que o torna interessante. Demora o seu tempo, porque Corredoura peca por ser metódico, mas quando arranca e ganha voz própria, o livro desafia-nos com uma série de e ses que o autor consegue levar por caminhos inesperados. E se os cientistas alemãos se tivessem revelado capazes de criar bombas nucleares (é aqui que entra o dedinho português, forçado por ser prisioneiro de guerra)? E se as tivessem lançado sobre Moscovo, com o conhecimento de um Estaline que aproveita para gozar o espetáculo? E se a conspiração de Stauffeberg para assassinar Hitler tivesse sido bem sucedida, seguindo-se a restauração da democracia na Alemanha e um armistício com os Aliados?

E se os americanos, também na posse de armas atómicas (sim, novamente, o mesmo dedinho português), tivessem optado por se concentrar na guerra contra o Japão, praticamente abandonando os ingleses? Ainda há outros e ses. Talvez o mais inesperado, e atenção ao spoiler, é a morte de Estaline às mãos de Béria, que permite que Kruschshev assuma o poder e, pasme-se, dissolva a União Soviética e a transforme numa federação de repúblicas. Corredoura não faz por menos, e diverte-se claramente a reinventar a história da Europa. Ou melhor, do mundo.

Apesar de demorar a ganhar velocidade, graças à ênfase que o autor coloca num meticuloso enquadramento, este livro é uma excelente história alternativa. Pega nas histórias da História e atreve-se a recontá-la, na melhor tradição do género.

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