quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Samurai Jack



IMDB | Samurai Jack (2001)
Samurai Jack
Wikipedia | Samurai Jack

Nas àridas paisagens televisivas há poucos programas que se destaquem por ultrapassar as mediocres normas culturais que caracterizam a televisão enquanto media de consumo. E quando se olha para a programação infantil, a devastação é quase total. Reina o banal, o comercialismo e a eterna repetição de fórmulas esgotadas. O conceito de programação infantil já inclui telenovelas, ideia cuja sensatez me ultrapassa e que, francamente, creio que brada ao céus pela sua irresponsabilidade. As crianças aprendem os valores que as caracterizarão quando adultas através da observação dos exemplos (como qualquer professor que já tentou corrigir algum comportamento especialmente mentecapto a algum petiz apenas para lhe ser apontado que lá em casa os pais fazem precisamente o mesmo dolorosamente sabe), onde a forte influência dos media se faz sentir com um peso enorme. Imaginem-se quais serão os valores de uma geração que nos anos formativos da sua vida aprendeu valores observado a "malta fixe" das telenovelas, sempre vestida à moda (independentemente dos custos da moda) e que dedica as suas capacidades mentais unicamente à eterna resolução de problemas sentimentais (reparem que a única coisa que as personagens de telenovela nunca fazem é mostrar que trabalham). Eu não sou daqueles que olha para as gerações que me sucedem, e para os seus valores, como uma catástrofe em temporizador curto, mas há que reconhecer que parecemos estar a fazer um esforço herculeo em danificar mentalmente as gerações futuras.

Mas há excepções. A 2:, canal de serviço público, esforça-se por manter uma programação de verdadeiro serviço público, em alternativa à banalidade comercial dos canais privados e do outro canal de serviço público. No que respeita à programação infantil, é uma programação inteligente, interessante e divertida, que demonstra que estes não são conceitos mutuamente exclusivos. É na 2: que passa aquele que visual e estéticamente é o mais interessante desenho animado a passar nas televisões - Samurai Jack.

Samurai Jack segue as aventuras de um samurai sem nome num mundo futuro. Jack é calão de rua para designar alguém de quem não se conhece o nome, e tudo o que se sabe de Jack é que ele é um guerreiro excepcional, que no antigo Japão combateu o demónio Aku ajudado por uma espada mágica (uma katana, mais específicamente). Aku pretende conquistar o mundo, e apenas Jack o consegue travar, graças às suas excepcionais artes marciais. No momento decisivo, quando Aku está prestes a sucumbir perante a espada do samurai, o demónio abre um portal no tempo e empurra Jack para um futuro em que Aku domina. O destino de Jack é para sempre combater Aku, esperando encontrar o caminho de regresso para o seu tempo. Jack, guerreiro excepcional, é aristocrático e com um sentido estético refinado, mantendo uma calma distância das surpresas do mundo futuro, e segue estoicamente o seu caminho, mesmo sabendo que há pouca esperança para o sucesso da sua missão.

É um desenho animado, o que é que esperavam? Existencialismo e dualidades morais?



Criado por Genndy Tartakovsky, Samurai Jack é um programa que se destaca pela elevadíssima qualidade estética. A animação é muito cuidada, estilizada, e utiliza na sua gramática visual elementos das várias linguagens do mundo da animação. As cenas do desenho animado saltam sem qualquer incongruência entre dramáticos close-ups ao melhor estilo manga/anime a abrangentes cenas ao melhor estilo Cinemascope, completas com as bandas negras no ecrã para simular a proporção do cinemascope. As cores são cuidadosamente coordenadas, e o aspecto visual é límpido, sem qualquer recurso a contornos. A elegância estilizada e dinâmica impera neste desenho animado.

Como se não bastasse uma invejável e cuidadosa mestria gráfica na animação, o estilo visual é algo que qualificável como simplesmente fabuloso. Visualmente, Samurai Jack vai beber ao estilo retro inspirado nos anos 50, com backgrounds de cena inspirados nos cartoons dos estúdios Hanna-Barbera, criaturas que parecem um cruzamento entre o bizarro estilo de Jim Flora, o estilo Tiki e os estilismos retropop.

Samurai Jack é uma pérola visual, uma delícia para os olhos de qualquer idade. Passa, infelizmente, por volta da hora do almoço, altura em que qualquer criança que se preze está enclausurada na escola a contar as horas até ao próximo episódio da Floribella... enfim, Samurai Jack é um segredo bem guardado, a ser apreciado por apreciadores da estética cuidada e da beleza inteligente e elegante de qualquer idade.

4 comentários:

Anónimo disse...

Já via desde que descobri o Samurai na Cartoon. Concordo com o que dizes.

Artur Coelho disse...

É, tecnicamente e estéticamente é perfeito. Coisa muito rara.

Anónimo disse...

Vi uns episódios o ano passado e intrigou-me a, já apontada, qualidade da animação: fluida, e com arrojo. Principalmente nas cenas em que o protagonista enfrenta grandes multidões de adversários, nas quais os detalhes são bem esquematizados pelos animadores sem transformarem o conjunto na vulgar animated pasta.

Para concluir: é o tipo de séries que eu adoraria ter visto quando era puto. Hummm... Onde está a TV Guia?

D.

Anónimo disse...

Parabéns pela crítica muito bem conseguida, estou de acordo e aconselho todos a verem a série.