Alfredo Castelli, Giovanni Freghieri, Alessandro Chiarolla (2026). I Grande Enigmi di Martin Mystère #39. Milão: Sergio Bonelli Editore.
Confesso, da panóplia de personagens Bonelli, é Dylan Dog quem me leva o coração de fã. O western clássico de Tex nunca me atraiu, o weird western de Zagor também não, e o policial procedimental de Julia toca num género que não faz as minhas preferências. A FC de Nathan Never tende a diluir-se em aventuras que têm mais de policial do que de FC. Infelizmente, Martin Mystère segue pelo mesmo caminho, apesar de ter à partida todos os ingredientes para agradar: um personagem principal erudito que se dedica a investigar estranhos mistérios, acompanhado pelo seu fiel neandertal (não é uma piada, quem conhece a série, percebe). Alfredo Castelli, o seu criador e principal argumentista, tem em comum com Tiziano Sclavi o ser um autor que sabe contar histórias intrigantes, e misturar nelas uma forte erudição da cultura do fantástico, polvilhando-as de referências mais ou menos subtis. No entanto, apesar de todos estes elementos, o personagem nunca me tocou.
Desconheço se o personagem teve continuidade após o falecimento de Castelli, dado que ao contrário dos restantes da Casa Bonelli, Martin Mistère estava claramente associado ao estilo do seu criador. Não sei se um Mystère sem Castelli funcionaria, tal como um Dylan Dog funciona bem sem Sclavi - claro que com Sclavi, funciona genialmente. Suspeito que neste personagem, a editora esteja a viver de reimpressões. O mais recente que encontrei aquando da minha curta estadia italiana em Agosto é claramente uma reimpressão, e feita de maneira algo desrespeitosa - colige três histórias, uma sendo a conclusão de histórias publicadas no número anterior, e as restantes um arco de aventuras que é... concluído no próximo número.
A primeira é deliciosamente surreal, misturando duendes, fadas, smurfs e outras criaturas minorcas com que Mystêre terá de se deparar. As restantes seguem o mistério de uma criança sobredotada, com uma espécie de cérebro computacional que lhe dá acesso a todo o conhecimento, resultado das experiências de um cientista louco claramente decalcado das personagens de Vincent Price (entre o nome "Phybes" a referenciar uma das personagens clássicas do ator americano e a caricatura das feições de Price aplicadas ao vilão, não é exatamente uma referência subtil).
Confesso que nesta viagem, senti uma certa perda de importância da BD Bonnelli. Não encontrei mais do que as edições do mês em banca, e nas livrarias, nas secções de BD reparei na quase ausência de reedições dos seus personagens, quer em paperback quer em capa dura e edições deluxe. Talvez o seu tempo esteja a passar? Talvez tenha a ver com a zona que visitei, dado que Florença é uma cidade turística e a oferta cultural reflete isso?