Elaine Sanceau (1961). Castelos em África. Porto: Livraria Civilização.
Há um certo divertimento na leitura destes antigos livros de história popular. Em parte pelo simplismo da sua mundivisão. Não há nuances, análise cuidada das várias vertentes de uma questão, ou uma preocupação de cuidada análise social. É história como aventura, focada apenas nas façanhas dos protagonistas, tendo subjacente uma visão binária que nos coloca a nós, protagonistas, como homens superiores cuja missão é a de subjugar os povos inferiores e descrentes. Os valorosos cavaleiros da cristandade, que vinham ao norte de África tentar o impossível, vencer as hordes de pérfidos infiéis de viciosa cultura.
Felizmente, a nossa visão da história evoluiu.
O livro olha para a epopeia portuguesa em Marrocos, iniciada com a conquista de Ceuta em 1415 (o momento em que se pode começar a história do colonialismo moderno), e finalizada com o desastre de Alcácer Quibir. O tom do livro é aventureiro, salientando a visão de uma gesta cavalheiresca que se traduzia na conquista de praças costeiras onde os nobres das nações se vinham armar cavaleiros. Não só os portugueses, como o livro nos conta. Uma visão heroica de conquista, embora com pouca utilidade real, já que era impossível a captura de terrenos interiores e se vivia numa situação de guerra permanente, sustentada a custo pela coroa e pela pilhagem dos recursos locais.
Num aparte curioso, este livro não esquece o papel das mulheres, embora sempre subordinadas aos homens. Primeiro, como fieis esposas e muitas vezes combatentes nos acometimentos às fortalezas, mas também como moeda de troca sexual, com cativas de lado a lado a serem casadas com os cavaleiros e soldados (após conversão, claro, que naqueles tempos era o que se fazia) ou internadas nos haréns dos senhores árabes.