W. Patrick McCray (2025). README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines. Cambridge: MIT Press.
Pode parecer contra-intuitivo, olhar para a história da computação sobre a perspetiva dos livros. Afinal, computação é tecnologia, intersectada com impactos sociais, e temos o hábito de pensar mais nos elementos tecnológicos do que na literatura. O que McCray demonstra é o oposto. O venerável livro, como objeto e como meio de arquivo e divulgação de informação, tem sido um companheiro fundamental da evolução da computação.
A grande razão é a nossa sede de conhecimento, e mesmo nos dias em que o livro como objeto físico se dissolve no digital, continua a ser o meio primordial e privilegiado para concentrar e sintetizar informação, mesmo em campos tecnológicos onde sabemos que o tempo que medeia entre escrever, editar e publicar um livro pode significar que quando chega aos leitores, já está desatualizado sobre a vanguarda da tecnologia que aborda. Mas há algo mais profundo em jogo - primeiro, o livro enquanto analista de grandes tendências. Da minha experiência a ler antigos livros de futurismo tecnológico, é muito interessante perceber que se as tecnologias mudam, a grande novidade futurista de hoje está amanhã obsoleta e esquecida, as tendências estruturais onde as melhores análises tecnológicas se inserem parecem estar continuamente presentes. Se antigamente se falava de computadores inteligentes com misto de deslumbre e preocupação, hoje fazemos exatamente o mesmo, trocando computadores por inteligência artificial, dando um exemplo muito óbvio de ideias estruturais que se mantém apesar da forma como a tecnologia evolui.
McCray constrói a sua análise bibliográfica de forma cronológica, olhando para as várias etapas da evolução da computação através de obras-charneira que lhes foram contemporâneas. As surpresas começam logo no princípio, no final dos anos 40, tempo do surgimento dos primeiros livros que procuravam explicar o que era o computador para o público em geral. McCray olha em particular para um livro que na ânsia de procurar uma metáfora acessível que facilitasse a compreensão rápida da essência do mundo da computação, nos legou uma ideia que se tornou perene. O livro foi o Giant Brains de Edmund Berkeley, e não é difícil fazer o salto conceptual de ter sido a obra que estabeleceu na consciência global uma metáfora tão pervasiva que se hoje pedirem a um qualquer gerador de imagens por IA que mostre como é a IA, sai de certeza uma imagem de uma espécie de andróide de cérebro digital.
Este livro leva-nos a redescobrir outros autores e pensadores fundamentais. Norbert Wiener, que na sua visão de cibernética teve a preocupação de temer o potencial desumanizador da sua visão tecnológica nas mãos de tecnocratas. Joseph Weizenbaum, talvez o primeiro grande crítico da tendência humana para confiar em excesso e atribuir uma falsa humanidade ao output dos computadores. Ted Nelson, o controverso ícone contra-cultural que viu no computador um extraordinário elemento capacitador e libertador do potencial humano.
Mergulha também na importância dos manuais técnicos, coligindo o conhecimento essencial sobre os novos campos da tecnologia, e tornando-se obras de charneira ao permitir disseminação e acesso ao conhecimento. Toca no desenvolvimento da tecnologia de representação textual em ecrãs com o desenvolvimento do LaTex.
Termina com uma nota algo amarga. Todo o livro foca-se em obras que descreveram ou alicerçaram a revolução computacional, quer entre a visão explicativa, crítica ou pedagógica. Termina com uma ideia de colapso ideológico, descrevendo na perfeição a bolha da internet nos anos 90, rodeada do hype de autores como George Gilder ou Esther Dyson, que propalaram uma visão de otimismo comercial que colapsou quando a realidade económica não correspondeu às visões de prosperidade digital imediata.
Se o livro termina aí, não deixa de se questionar sobre o corrente momento, com o impacto das tecnologias de Inteligência Artificial, com aquele sentimento de medo e deslumbre com algoritmos aparentemente capazes de simular consciência e sentido textual, recordando-nos que a história da construção automática de textos antecede a IA e das problemáticas de alucinações, plágio e fraude trazidas pela geração de texto.
Como bibliófilo que sou, não consigo terminar esta leitura sem a perceber como um elogio ao papel do vetusto, mas sempre eficaz, livro. Quer como meio de transmissão de conhecimento, mantendo-se relevante e essencial mesmo na nossa contemporaneidade onde há tantas outras formas de o fazer. Quer, também, como elemento de prestígio, inscrevendo a computação na profunda tradição simbólica do livro.