quinta-feira, 28 de maio de 2026

Linghun


Ai Jiang (2024). Linghun. Barca.

O meu primeiro encontro com a prosa de Ai Jiang foi através do inquietante e intrigante I am AI (não é autobiográfico, note-se), uma novela de puro cyberpunk contemporâneo que medita sobre a perda da humanidade, ostensivamente pela mecanização e digitalização, mas na verdade pelos mecanismos clássicos da ganância e opressão. Para lá da temática, a prosa de Jiang surpreendeu-me por ser intimista e emocional. Linghun segue outros caminhos, no campo do horror e do fantástico, e esse cerne emotivo da autora sustenta todo o romance.

Imaginem uma cidade onde os espíritos dos mortos podem reaparecer. Parece um cenário de horror, mas é um destino muito desejável para os familiares dos falecidos, que sacrificam tudo para comprar casa nessa terra e com isso voltar a sentir a presença dos seus entes queridos como aparições que acarinham. Claro, ter acesso a uma dessas casas é um privilégio difícil de obter, e as ruas da cidade estão cheias de pessoas sem abrigo, que abandonaram as suas vidas e lutam, literalmente, entre si em leilões para tentar obter o privilégio de chegar a uma habitação (uma metáfora nada velada sobre o corrente estado do mercado habitacional nos dias que correm). 

É para uma destas casas que se muda uma jovem sino-canadiana, a contragosto, seguindo uns pais obcecados com o reencontrar do espírito do seu filho mais velho. Os sentimentos de abandono e secundarização face ao espírito de um irmão que foi sempre favorecido pela mãe mesclam-se com a vontade pós-adolescente de emancipação. A rapariga irá juntar-se a outro jovem inadaptado, inconformistas de viver uma vida que se resume a abandonar a vida para não libertar os espíritos dos entes queridos. Mas, num final surpreendente, irá ela própria regressar à cidade, atraída pelo fascínio de manter por perto aqueles que nos deixaram.

O romance é surpreendente, um terror nada assustador onde se sente mais o peso da obsessão ou o desespero pela perda do que a clássica fantasmagoria. A edição portuguesa reúne mais dois contos da autora, na mesma onda de um horror intranquilo mas suave, emocional e intimista.