Dennis Taylor (2016)- We are Legion (We are Bob). Worldbuilders Press.
Não me atreveria a dizer que este foi dos livros com escrita mais elegante que li nos últimos tempos, mas lá que foi divertido e interessante, foi. A escrita é escorrida e dinâmica, em modo contação de história. Lê-se e entretém, mantendo-nos agarrados às páginas. Mas não é isso que torna este livro interessante. É uma space opera no sentido clássico do termo, cheio de acenos à cultura geek, mas consegue manter a frescura de trazer algo novo e não um mero replicar de tropes estafadas.
A aventura do livro começa num futuro próximo, quando o inteligente e algo irreverente milionário que prefere ser tratado por Bob decide criopreservar-se. Acorda num futuro mais distante, onde as coisas não correram muito bem. Descobre-se como virtualização consciente a ser testada para garantir a capacidade e conformidade ao serviço do governo que o despertou. Conformidade é o termo certo, neste futuro a américa dissolveu-se numa teocracia fundamentalista cristã, em constante competição contra as potências europeias, chinesa e brasileira. A missão deste Bob digital é a de espalhar a boa nova da palavra divina no espaço, como cérebro controlador de um novo tipo de nave exploradora - uma matriz robótica com capacidades autoreplicadoras de máquina de von Neumann. Isto, claro, se sobreviver aos testes que atestam a fidelidade da sua fé.
Claro está que a sua sagacidade ultrapassará o zelo dos zelotas, e claro está, também, que os teocratas não são os únicos a desenvolver esta tecnologia. Todos os blocos investem, porque sabem que é a chave para abrir os recursos do espaço e, com isso, garantir a sua supremacia. Uma competição que não é isenta de sabotagens e culmina numa guerra termonuclear que quase extingue a humanidade.
Entretanto o Bob original, lançado ao espaço, faz uso das suas capacidades para se libertar dos grilhões do software teocrata. Terá de enfrentar a ameaça de sondas brasileiras também tripuladas pelo simulacro inteligente de um dogmático militar que é incapaz de compreender que após uma troca de ogivas nucleares já não há guerra que valha a pena ser mantida. Bob expande-se pelo espaço, aproveitando os recursos dos sistemas solares que visita para construir réplicas de si próprio, que irão elas próprias espalhar-se para horizontes onde ninguém jamais foi.
Alguns regressam à Terra, para ajudar os punhados de sobreviventes a evitar a extinção e tripular naves coloniais que os levarão a planetas habitáveis descobertos por outros Bobs. Todos entidades conscientes, similares ao seu progenitor mas com identidades muito próprias. Outros ainda deparam-se com proto-civilizações alienígenas, que irão auxiliar a desenvolver.
Este Bobiverso é em simultâneo divertido e de leitura leve, mas atreve-se a tocar a fundo em tropes clássicas da Space Opera. A sua leveza disfarça a amargura dos nossos tempos contemporâneos, com a política a arrastar-nos para abismos que julgávamos terem sido ultrapassados, numa premissa ficcional que extrapola o nosso corrente momento histórico. O constante saltar entre pontos de vista de diferentes Bobs permite um emaranhado de linhas narrativas. Tanto acompanhamos o explorar de novos sistemas como os dilemas da sobrevivência, alternada com ação pura na defesa e caça aos brasileiros, e atrevendo-se a entrar nas narrativas de contacto com alienígenas, entre civilizações primitivas e artefactos inteligentes que apontam para formas de vida mais avançada. Leve e divertido, mas nem por isso pouco substancial.