terça-feira, 21 de julho de 2020

Comics: Riri Williams; Metal Hurlant - Selected Works


Brian Bendis (2017). Invincible Iron Man: Ironheart, Volume 1: Riri Williams. Nova Iorque: DC Comics.

Se forem daqueles que se ofendem se os personagens clássicos se desviarem um milímetro do cânone, se qualquer alteração ao que sempre leram vos faz acelerar a pulsação e entrar em laivos de fúria, fujam deste comic. Mas se forem daqueles que sabem que os comics não páram no tempo, evoluem conforme os novos leitores, se adaptam às transformações culturais, então esta é uma leitura recomendada. O clássico Iron Man Tony Stark é colocado de lado (não totalmente, aparece como mentor em forma de inteligência artificial), e quem lhe sucede é uma genial adolescente afro-americana de 15 anos. Não sei porquê, mas estou mesmo a ver a substituição do típico alfa male rico e playboy branco por uma teenager de pele negra como algo capaz de provocar ataques cardíacos nos fãs mais rebarbados dos comics. Pessoalmente, adoro. É o género a adaptar-se a novos leitores, mostrando que não fossilizou.

Se bem que Bendis, no essencial, aplica a fórmula Spider Man/X-Men que Stan Lee tão bem explorou. O sucesso da Marvel nos anos 60 assentou em heróis cujos problemas eram leves metáforas dos dilemas da adolescência. A dicotomia Peter Parker/Spiderman é o exemplo textbook disso. Bendis repete este bê-a-bá, moderninzando-o para o momento contemporâneo. Riri Williams, a nova detentora das armaduras e genialidade mas que, num aceno discreto mas muito potente aos contextos culturais de género millenial, se recusa a chamar-se Ironwoman ou Irongirl, prefere o (assenta como  uma luva Ironheart), é essencialmente a metáfora da adolescência, do sentir-se simultaneamente especial e incompreendido, de gerir as expectativas dos adultos enquanto se forma uma personalidade e se procura o seu lugar no mundo. Aqui, sem crises de acne, mas com ataques de supervilões e muita tecnowizardry.


(2020) Metal Hurlant - Selected Works. Humanoids inc.

Sabemos que desta clássica publicação podemos sempre esperar umas banda desenhada diferente, muito dedicada ao fantástico (especialmente ficção científica) e a equilibrar-se entre estilos. A Metal Hurlant/Heavy Metal esteve sempre no cruzamento entre Comics comerciais, BD francófona, e banda desenhada, apostando numa estética de radicalismo gráfico e temático para marcar a diferença. Esta antologia é uma espécie de Best Of que toca em todos esses campos. Algumas histórias são excelentes, e todas se distinguem pela qualidade gráfica, que sempre foi uma das bandeiras da revista.