terça-feira, 10 de julho de 2018

Charley’s War



Pat Mills, Joe Colquhoun (2018). Charley’s War Vol. 3: Remembrance - The Definitive Collection. Londres: Rebellion.

Se queremos ler a obra definitiva em banda desenhada sobre a I Guerra Mundial, Era a Guerra nas Trincheiras de Tardi é o livro incontornável. E, logo de seguida, diria Charley's War de Pat Mills e Joe Colquhoun. Tardi seguiu um caminho de rigor histórico com sentido crítico, retratando na perfeição o absurdo e horror da guerra. Um trabalho de rigor e crítica que lhe valeu a admiração dos leitores e, com uma certa ironia, honras militares do estado francês.

Pat Mills seguiu um caminho similar, mas mais discreto. A série Charley's War segue as aventuras de um soldado comum do exército britânico durante a I Guerra, acompanhando a dureza das trincheiras. Embora se mantenha dentro dos padrões dos comics britânicos, Mills aproveita a estrutura narrativa dos comics de guerra para passar uma forte mensagem crítica. Não há heroísmos, apenas a necessidade de sobrevivência face ao inimigo e à inépcia assassina dos comandantes, corrupção e estratificação social, e o horror do confronto diário com a morte violenta. Charley, retrato do comum bloke britânico, arregimentado para combater numa guerra que não é a sua, tudo suporta e sobrevive, apenas para receber em troca o ser um dos muitos desempregados de longa duração na depressão que se seguiu à guerra.

O trabalho de Mills é especialmente corrosivo se o enquadrarmos no contexto dos comics britânicos. São um meio comercial, e o género de guerra sempre seguiu narrativas elementares, meras histórias de aventura em combate, cheias do heroísmo dos bravos soldados britânicos e de fiabilidade histórica entre o duvidoso e o absurdo. Um estilo que ainda hoje sobrevive na interminável edição da revista Commando. Mills pegou neste estilo e conseguiu utilizá-lo para passar uma inesperada visão crítica da guerra e da sociedade britânica, mantendo o tom de aventura. Deve ter sido uma enorme surpresa para os leitores das revistas para rapazes britânicas quando, em 1979, as histórias das desventuras do soldado Charley Bourne começaram a quebrar o modelo narrativo dos comics de guerra.

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