quarta-feira, 23 de maio de 2018

Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak



Tiziano Sclavi, et al (2018). Colecção Bonelli #03: Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak. Lisboa: Levoir.

O terceiro volume da coleção Bonelli é um brinde para os fãs do Old Boy. Dylan Dog regressa ao público português, depois da edição de Mater Morbi, e é um regresso muito especial. É a primeira vez que em Portugal se editam histórias de Tiziano Sclavi, o seu criador e melhor argumentista da série (apesar de Roberto Recchioni e Paola Barbato terem aguentado muito bem o manto de excelente argumentistas de Dylan Dog).

O volume colige duas aventuras do detetive dos pesadelos. Em Johnny Freak, Sclavi conta-nos uma história decididamente perturbadora, longe do registo sobrenatural mas bem dentro do incómodo. Apesar da sua forte conotação ao sobrenatural, as aventuras de Dylan Dog são suficientemente ambíguas para atravessar géneros, do policial ao fantástico, e até ficção científica. Nesta saga, o tom é decididamente grand guignol.

O protagonista é um jovem surdo-mudo, excecionalmente dotado para a pintura e música, mantido em cativeiro pelos pais numa cave. Estes adoram o seu primeiro filho, vítima de uma doença rara, e conceberam Johnny para ser repositório de orgãos e membros para o primogénito. Sempre que um dos seus orgãos falha, este é amputado a Johnny para os substituir. Quando este quase morre num fogo na casa de família, conseguindo escapar apesar das suas enormes deficiências físicas, cruza-se com Dylan Dog, que aturdido com a profunda maldade deste caso, fica especialmente sensibilizado com Johnny. A história acabará mal, com o irmão, que o odeia e aos seus pais pelo que estão a fazer para o manter vivo, a conseguir assassinar este surdo-mudo deformado cujo olhar atravessa o coração. Sclavi não poupa o leitor, manipulando as suas emoções, levando ao máximo a sensibilidade narrativa, entre a monstruosidade de alguns personagens e o carinho de Dylan Dog.

Na segunda história coligida neste volume, O Coração de Johnny,  o tom grand guignol segue decididamente para o gótico. O desesperado irmão do falecido Johnny Freak, às portas da morte, vinga-se daqueles com que se cruzou, a começar pelos próprios pais. No entanto, uma centelha da bondade de Johnny Freak mantém-se no seu coração. Se Sclavi exagera deliciosamente no chocante, o estilo visual segue um toque de grotesco gótico, muito apropriado à história.

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