sexta-feira, 16 de março de 2018

Mister Miracle by Jack Kirby



Jack Kirby, Vince Colleta, Mike Royer (2017). Mister Miracle by Jack Kirby. Nova Iorque: DC Comics.

Sem o sentido épico dos restantes elementos do Quarto Mundo, o universo ficcional que Jack Kirby desenvolveu para a DC após ter saído da Marvel, Mister Miracle desenvolve um lado mais no sentido do espetáculo puro. Os desafios do prestidigitador, capaz de continuamente desafiar a morte em truques de escapismo elaborados, cruzam-se com as capacidades e dilemas de um ser que vem de fora, fugido dos recantos mais tenebrosos do Quarto Mundo para viver em liberdade na Terra. Scott Free é mais do que um nome, é toda uma metáfora.

Os velhos inimigos, vindos de Apokolips, não desistem de o perseguir, o que é um excelente pretexto para Kirby explorar a fundo a textura do seu Quarto Mundo. Que, no caso de Apokolips, sublinha uma maldade inata que roça o absurdo, extrapolada em personagens bizarras como Granny Goodness, a antítese da avozinha simpática que endurece os jovens de Apokolips com sevícias no seu orfanato, o poder mental de Doctor Bedlam, o nazismo incorporado de Virman Vundabar ou o efeminado Kanto, mestre assassino. Adversários constantes, incansáveis nos seus esforços por recapturar e humilhar Scott Free, que se vai escapando graças a uma combinação de engenho, tecnologia de uma motherbox que lhe foi dada por um semi-deus de Nova Génese, eterna rival de Apokolips, e um grupo crescente de amigos. Destes, destaca-se a intrigante Big Barda, uma perfeita quebra do estereótipo da donzela frágil dos comics, que serve apenas para ser salva pelo herói. Forte, espadaúda, mestre nas artes da guerra e também ela dissidente dos modos de vida do reino de Darkseid, Barda é uma força da natureza a que poucos adversários sobrevivem.

Visualmente, temos o traço clássico de Kirby, rude e marcante, com uma elegância terra a terra que nos conquista. O tratamento de cor de Vince Colleta e Mike Royer conferiram a estes comics um visual de pura quadricromia, com tons vibrantes e berrantes que, no entanto, fazem todo o sentido a acompanhar o traço de Kirby.

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