terça-feira, 20 de março de 2018

Crazy Equóides



João Barreiros (2018). Crazy Equóides. Lisboa: Imaginauta.

Conhecedores da obra de João Barreiros sabem à partida o que esperar dos seus textos. Nunca desilude, e dá aos seus leitores aquilo que estes esperam dele. Barreiros tem uma fórmula de escrita apurada, com temáticas afinadas e personagens-tipo invariavelmente metidas em situações de comédia negra. Notem que é uma fórmula, inerente a qualquer processo criativo, não quero com isto dizer que Barreiros seja formulaico. Há uma diferença qualitativa assinalável entre encontrar e estruturar uma voz artística e repetir elementos seguros até à exaustão.

A irreverência de Barreiros sempre me pareceu, por um lado, como extensão lógica da sua personalidade de enfant terrible. Aquela que se delicia em público, com aquele tom de voz e brilho nos olhos que lhe conhecemos, a chocar ou desconcertar interlocutores. Isso não chega para ser um escritor interessante, estatuto que atinge pela sua qualidade literária, ideias de base enciclopédica na FC e solidez dos mundos ficcionais que invoca. E, claro, uma fortíssima irreverência. Nos seus livros e contos, esta sente-se como reflexo de um trauma profundo. Sosseguem, não daquelas dores de umbigo psico-melodramáticas do mainstream.

Barreiros é um confesso admirador da FC clássica, dos foguetões de metal reluzente a espraiar o fardo do homem branco pelas galáxias, das visões utópicas dos futuros esquecidos dos anos 50 e 60.  A sua ficção tem o seu quê de reação ao choque destas visões inocentes com o futurismo galopante de desigualdades e as incoerências e pulsões pouco utópicas do espírito humano, que só os mais cândidos ainda acreditam ser fundamentalmente bom. Misturem isto com sarcasmo e capacidade inventiva, e têm a receita para o tipo de FC que pratica: negra na sua abordagem, instrumentalizando a visão da tecnologia para invocar paisagens de decrepitude induzida ou utopias colapsadas.

Este Crazy Equóides não escapa à fórmula, e ainda bem, que Barreiros tem-a bem afinada. Esta novela vai num sentido um pouco diferente. Foca-se na sexualidade, e vinda de quem vem, não esperem romantismos ardentes. Antes, temos uma civilização alienígena levemente centáurica com hábitos reprodutores peculiares, levados a um apocalipse provocado pelo desejo sexual induzido por um cuidadoso primeiro contacto com humanos. Um frenesim especialmente destrutivo. Temos Inteligências Artificiais gananciosas e amorais, humanos reduzidos à condição de serventes de IAs,  e duelos mortíferos com mísseis termobáricos. Reparem que o conto foi escrito como âncora para uma antologia de FC erótica, que nunca chegou a ser publicada. Apocalipse ao estilo de João Barreiros é sempre qualquer coisa de extraordinário no seu âmbito.

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