terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Tecnologia versus Humanidade



Gerd Leonhard (2017).  Tecnologia versus Humanidade: O confronto futuro entre a Máquina e o Homem. Lisboa: Gradiva.

Humanismo tem sido uma ideia muito ausente do corrente debate sobre o impacto, sentido já hoje, da combinação de inteligência artificial, robótica/automação, machine learning, big data e algoritmia no futuro da nossa sociedade global. As visões costumam oscilar entre as tecno-utopias quasi-religiosas dos singularitários, deslumbramento com o brilhantismo de um futuro pós-mecanicista, ou visões aterradoras da humanidade como resquício num mundo automatizado, combinando os piores aspetos do capitalismo com a tecnologia. Apesar do título aparentemente bombástico, que nos remete para as visões mais assustadoras do impacto das tecnologias, Gerd Leonhard segue um caminho inesperado.

Uma questão que é constante ao longo do livro é a "se somos capazes de fazer, isso significa que devemos fazer"? Não é uma questão habitual nas leituras futuristas que tenho feito, que assumem a rápida evolução como inevitável. Quer como efeito de progresso acelerado, quer através do argumento "se nós não o fizermos, outros o farão".  Uma variante do lema move fast and break things da tecno-elite financeira, com antevisão da trabalheira que dará limpar os cacos da aceleração.

Leonhard segue o habitual esquema deste tipo de livros, mapeando, a partir da sua experiência, o crescimento dos campos do costume. Redes sociais, algoritmos, automação, robótica, inteligência artificial, bio tecnologias estão no radar deste futurista, que as detalha com admiração mas sem se perder no deslumbramento. O humano, a ideia que a tecnologia existe para servir a humanidade e não por si só, está no centro das suas preocupações. As questões são colocadas com lucidez, sem ceder à tentação de pregar um abrandamento ou regressão para proteger a humanidade de uma possível extinção (uma das lógicas mais radicais do futurismo transumanista).

Constante é a sua preocupação com as consequências, quer positivas quer negativas, de um desenvolvimento tecnológico que se tornou fundamental para a nossa sociedade. Inerente a esta preocupação está uma visão do espaço público com obrigação interventiva, entre o pessoal e o social, apontando problemáticas, apontando e travando excessos, colocando moratórias no desenvolvimento de algumas tecnologias. Algo que deixa nervosos os correntes paladinos da evolução tecnológica livre, mas já tem precedentes em muitas áreas, desde a ética biomédica ao nuclear.

Poder fazer não torna o fazer inevitável, há que saber analisar problemáticas e tomar decisões informadas. O impacto global das tecnologias NBIC já se faz sentir, embora de forma assimétrica a nível global, e também entre os seus aspectos positivos e negativos. Reforçar o valor do humanismo, ou melhor, recordar-nos que apesar do fascínio, a evolução tecnológica não existe por si só, parte de uma tradição focada nas necessidades humanas, é o grande papel desta adição ao catálogo da literatura futurista contemporânea.

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