terça-feira, 21 de novembro de 2017

Dormir Com Lisboa

 

Fausta Pereira (2017).  Dormir Com Lisboa. Santiago de Compostela: Urco.

Este é um livro curioso. De autora portuguesa, publicado apenas na Galiza por ter sido vencedor de um concurso literário galaico, leva-nos a uma Lisboa de todos os dias que, repentinamente, parece revoltar-se com os seus habitantes e aqueles que por ela passeiam e passa-a a engoli-los, aleatoriamente. Buracos inesperados que se abrem nos pavimentos e devoram transeuntes insuspeitos.

Estará a cidade a revoltar-se contra os seus habitantes? Será um reflexo da descaracterização e transformação em parque temático provocado pelos excessos do aproveitamento turístico? Será o último grito da ideia que temos da cidade clássica face às transformações da modernidade? Políticos, militares e cientistas procuram explicações e soluções, mas não as encontram. A cidade fica em estado de sítio, só saem à rua os mais incautos ou corajosos, a qualquer momento, em qualquer rua ou beco, pode-se abrir um buraco devorador. Nada se sabe dos desaparecidos, que não deixam qualquer rasto. Enquanto se agudiza a confusão dos responsáveis políticos, a razão dos desaparecimentos vai-nos sendo revelada, envolvendo a encarnação de uma entidade que se assume como o grande arquitecto da cidade e que rapta temporariamente lisboetas para lhes ler os sonhos, interpretando-os em Lisboas que nunca existiram, ou que já existiram mas desapareceram. Encontrará aqui traços do que é a cidade, e para onde ela se poderá desenvolver.

É aqui que o livro falha um pouco. O foco centra-se muito nas discussões e decisões dos políticos que tutelam, os cientistas que investigam, e os militares que policiam. O retrato é bastante expectável, naquele registo de ironia fina que retrata a mesquinhez, pequenez e competência duvidosa que projetamos nestas personalidades. Muitas páginas com isso, e comparativamente poucas onde o livro consegue ser espantoso, nos retratos oníricos de uma Lisboa que poderia ter sido. É nesses momentos, retratados nos depoimentos dos desaparecidos que reapareceram tão misteriosamente como tinha desaparecido, que esta história ganha asas, força e envolve emocionalmente o leitor.

Lisboa é aqui revista num toque de realismo mágico, próximo do fantástico. Uma forma diferente, inesperada porque vinda de fora, apesar da escritora ser lisboeta, de imaginar a cidade de que tanto gostamos.

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