segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Comics


Doomsday Clock #01: Ah, Watchmen, a série brilhante que Alan Moore criou com personagens esquecidos da Charlton para a DC Comics. Também a origem da lendária zanga de Moore com a DC, porque este esperava que os direitos de autor da série revertessem para si a partir do momento em que a editora deixasse de a publicar... algo que nunca aconteceu, com reedições constantes, filme, e extensão do universo ficcional com a série Before Watchmen. Agora o passo seguinte é o lógico: inserir os personagens de Watchmen na continuidade principal da DC Comics. Algo que, pelo tom deste primeiro Doomsday Clock, será feito em rota de colisão, com um Dr. Manhattan a funcionar como relojoeiro entre universos. O mundo de Watchmen está em colapso iminente, com a conspiração de Veidt desmascarada, e em risco de guerra nuclear. O estilo gráfico e narrativo está muito próximo do original, com Geoff Darrow a manter a estrutura rígida de prancha para marcar a narrartiva que Alan Moore usou, e o ilustrador Gary Frank a aproximar-se muito do estilo visual de Brian Bolland. Goste-se ou não das trafulhices que a DC fez a Moore, a verdade é que Geoff Darrow tem sido um cuidadoso cuidador de Watchmen, trabalhando para que a visão original não se dilua na expectável banalidade do comic de super-heróis. Um esforço que é notório neste primeiro Doomsday Clock.

4 comentários:

joão campos disse...

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que esta incursão no universo ficcional de Watchmen - que finalmente explica a razão por detrás de Before Watchmen - acaba sempre por ser uma mancha no simbolismo do comic original, e não só (mas também) pela oposição ao criador, Alan Moore.

Nunca acompanhei comics de super-heróis em miúdo, e quando tive acesso a elas já não me interessaram - todo o conceito é profundamente problemático, como se tem tornado evidente nas adaptações cinematográficas que tentam dar "realismo" e "seriedade" a um género que não sobrevive a um escrutínio "real" e "sério (um dia destes tenho de escrever sobre isto). Mas acabei por conhecer um pouco do género, dada a sua omnipresença na cultura popular. E lembro-me de a leitura de Watchmen ter sido revolucionária. "I did it 35 minutes ago" é uma das melhores linhas que já li em banda desenhada - e é o pináculo da desconstrução impiedosa que Moore faz às histórias clássicas de super-heróis (para além de ter criado uma personagem omnipotente verdadeiramente interessante, um desafio para todos os efeitos impossível). Ver aquela história e aquelas personagens misturadas nas histórias e com as personagens que ela satirizou e desconstruiu acaba por ser triste, e uma falta de respeito enorme da DC para com aquela que será sem dúvida uma das melhores cinco obras que alguma vez publicou.

Enfim, vivemos nos anos 201X, nada está a salvo da praga de sequelas e prequelas, remakes e reboots que tomou conta da cultura popular.

artur coelho disse...

ainda me recordo da sensação de profundo realismo que senti quando fiz a minha primeira leitura deste livro. todo o enquadramento de documentação que encerrava os capítulos era para mim novo, e ficava com a sensação impossível de que aquilo teria acontecido.

e, de facto, toda a cena com adrian veidt como super-vilão a contar tudo o que fez, após o ter feito e os heróis serem impotentes quer para o travar quer para recuperar a verdade, é das mais profundas inversões que moore fez ao género (e ao pulp em geral).

também vejo com apreensão o enfiar destes personagens no universo dc. é um completo missing the point, um ordenhar ao máximo a propriedade intelectual.

joão campos disse...

Não me parece que a DC precisasse disso, mas pronto. Podia continuar a mastigar as personagens pastilha elástica e tratar os clássicos com a reverência que merecem. Infelizmente, na banda desenhada contemporânea (e não só) a lição do Bill Watterson parece estar muito esquecida.

Pedro Almeida disse...

Dois reparos apenas: os personagens de Watchmen não foram personagens da Charlton. Era de facto a intenção inicial de Moore mas como a DC tinha planos para eles, decidiu criar versões (ex. Night Owl seria o Blue Veetle). E o desenhador foi Dave Gibbons.