terça-feira, 1 de agosto de 2017

The Cornelius Quartet



Michael Moorcock (2001). The Cornelius Quartet. Philadelphia: Running Press.

Caricatura dos agentes secretos da literatura popular, personagem fluída que escorrega através de tempos, para quem o passado e o futuro são simultâneos. Dandy consumado, com a sua casa londrina e o seu Duesenberg, agente de conspirações secretas, está envolvido com um imenso grupo de agitadores de quem tanto é companheiro de luta como inimigo. Cornelius é uma espécie de novo homem, que se move pela história sem ser agrilhado pela tradição, nexo fulcral de um mundo que se revela progressivamente como uma elaborada comédia, onde todos os anseios e desejos são elementos do papel que cada um desempenha. Essencialmente, um messias da contra-cultura. Personagem de uma série de quatro livros onde Moorcock começa por caricaturar o género de aventuras e culmina no profundo experimentalismo, será posteriormente reescrito pelo autor na sua restante obra, ligando-o especialmente ao seu campeão eterno, Elric, da sua série de fantasia épica.

The Final Programme: Numa Europa em fase terminal, a partir da Londres decadente, Jerry Cornelius vê-se envolvido numa violenta aventura. Este misto de dandy e agente secreto terá de eliminar a sua própria família, refugiada num castelo fortificado na Normandia, enfrentar tédio e decadência numa Londres em crise,  invadir instalações subterrâneas secretas nas fronteiras geladas entre a Suécia, Finlândia e Rússia, tentando manter-se independente face a um grupo de conjurados liderado por uma mulher misteriosa.  Carismática, procura sem parar o código e tecnologias que lhe permitam implementar o programa final: um novo ser humano hermafrodita ,  espécie de computador contendo a soma do conhecimento humano. Um romance bizarro, que oscila  entre a aventura de espionagem e o psicadelismo.

A Cure For Cancer: É complicado perceber com rigor de que cancro se procura a cura do título. Será a morte que consome a adorada irmã de Cornelius, cuja pulsão para as suas muitas lutas está em restaurar-lhe, por breves e incestuosos momentos, a vida? O será o cancro da inconformidade, da liberdade de pensamento, da multiculturalidade, da diversidade? Ao longo deste romance de contornos psicadélicos, as jornadas de Cornelius debatem-se sempre com poderosas forças que visam restaurar a ordem, quer arrebanhando os indesejáveis em campos de reeducação numa américa sob governo ordeiro, quer exterminando-os com napalm e armas químicas lançados pelos caças americanos a auxiliar os aliados britânicos, quer saturando a Europa de conselheiros militares numa guerra em que o inimigo imparável são os israelitas. Por detrás destas forças há agentes de organizações secretas que se aproveitam da confusão para dominar o mundo, ou usam o caos para incentivar a diversidade que tanto incomoda as forças conservadoras. Jerry Cornelius, misto de agente secreto com ser espiritual, símbolo sexual andrógino e estrela de rock, está de regresso para um alucinante périplo entre Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, por entre missões secretas, recontros empolgantes, conspirações inesperadas, muitas mulheres que se rendem aos seus encantos, num registo de pura aventura. Moorcock utiliza neste romance a estratégia narrativa introduzida por John dos Passos, misturando recortes de imprensa com a narração dos acontecimentos. Fiel ao espírito pulp do personagem que criou (apesar de ser um aproveitamento metacrítico das estruturas e conceitos do pulp), os recortes são da imprensa sensacionalista, que também fornece os delirantes títulos da míriade dos curtos capítulos em que se divide o romance.

The English Assassin: As várias realidades paralelas do multiverso colapsam numa guerra que opõe Cornelius e a sua aliada Una Persson aos seus inimigos de sempre. Apesar de ser um romance do arco Cornlius, este personagem mal aparece no livro, estando presente mais em espírito do que em acções. O foco está nas acções dos seus inimigos e outros personagens envolvidos na luta titânica que ameaça colapsar realidades. O ponto de vista é fragmentado e múltiplo, com a história a progredir de forma linear mas fracturando-se nas diferentes realidades em que se desenrola o conflito. Uma simultaneidade quase cubista, onde cada curto capítulo muda o cenário. Moorcock insere livremente diferentes mundos ficcionais da sua obra, com a realidade proto-steampunk dos romances da série Oswald Bastable a intrometer-se neste episódio do arco Cornelius. Romance complexo, de leitura fragmentada, forma um mosaico de episódios aparentemente desconexos mas unidos num rigoroso arco narrativo.

The Condition of Muzak: Neste romance final do quarteto Cornelius, Moorcock mergulha-nos num profundo barroquismo psicadélico. Estilhaça as continuidades narrativas num livro que vai evoluindo de fragmentos de aventuras até à pantomina. Os tempos fluem, passados e presentes coexistem na personagem de um Cornelius progressivamente amnésico. Tudo culmina numa Londres como espaço de utopias, num reino unido fragmentado em miríades de nacionalidades, onde todos, desde os antigos habitantes das ilhas britânicas aos emigrantes, demarcaram os seus territórios depois de uma guerra civil que colapsou a ilha, após uma era de guerra constante que transformou irremediavelmente o planeta. Guerra essa que poderá ter sido causada pelas manipulações dos companheiros de Cornelius, que se repetem em conspirações e ações ao longo dos vários tempos paralelos. O próprio Cornelius, o temível assassino inglês, dandy psicadélico que flui através de continuidades temporais, torna-se uma espécie de rei de uma Londres que ninguém reclama porque ninguém a quer, e após a morte da sua mãe, ao perscrutar os documentos do seu nascimento, intui que com tantos saltos no tempo, poderá ter num passado casado com uma mulher que abandonou, gerando-lhe um filho que é ele próprio. Dos romances do quarteto, este é o mais difícil de seguir, pela forma como Moorcock aniquila as continuidades narrativas. Aliás, nem vale a pena tentar extrair sentidos lineares desta complexa tessitura de fragmentos. Partes remetem-nos para outras aventuras de Cornelius, partes para outras séries, como a Oswald Bastable. O que se sente é uma progressiva evolução de narrativa pulp para algo mais experimental, uma grande comédia (uma harlequinada, para ser mais específico) que unifica todos os universos ficcionais saídos da mente deste escritor.

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