quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Épico de Gilgameš




Francisco Parreira (tradução) (2017). Épico de Gilgameš. Lisboa: Assírio e Alvim.

São estes elementos que despertam a paixão pela literatura. Saber que o livro que se segura nas mãos contém palavras, pensamentos, escrito há milhares de anos por homens de outros tempos, outras civilizações, praticamente de um outro mundo, é avassalador. Torna-se ainda mais ao perceber que, apesar das marcas e influências que deixou noutros textos basilares da cultura clássica, como a Bíblia ou a Ilíada, esteve até há pouco tempo completamente perdido, disperso em fragmentos de tabuinhas de barro, enterrado sob a areia dos desertos. O esforço de arqueólogos e tradutores recuperou-nos este texto, que nesta condição se tornou, talvez, a mais antiga obra aberta de sempre. Novas traduções encontram novos significados, há partes perdidas, fragmentos ainda por decifrar, a sensação que esquecido sob ruínas mesopotâmicas ou perdido num arquivo poeirento, longe dos olhares de arqueólogos e linguistas, se encontram fragmentos que poderão completar ou continuar esta história basilar. Esta sensação de intemporalidade é tremenda e fascinante, um fascínio tão grande quanto o sentir palavras que nos remetem para o mundo dos primórdios da história, para os tempos esquecidos da antiga Suméria.

Não é difícil ver, nas aventuras do rei e do seu companheiro Enkidu, os antecedentes das narrativas de aventura que continuam a empolgar os leitores. Os seus combates contra Humwawa e o touro celestial de Ishtar, a dor de Gilgamesh pela morte de Enkidu, a busca pela imortalidade que culmina com o encontro com Utnapishtim e a narração do dilúvio que antecede a história bíblica, elementos que milénios após as suas transcrições para tabuinhas continuam a ressoar nos leitores de hoje. As vozes de um tempo extinto ainda hoje nos podem dar que pensar.

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