domingo, 21 de maio de 2017

Sustos às Sextas: Sugestões de Leitura



O João Castanheira, da organização desta tertúlia literária que decorre no palácio dos Aciprestes, convidou-me a vir à última sessão da terceira temporada dos Sustos às Sextas para partilhar sugestões de leitura sobre ficção científica e terror, o tema de uma sessão que contou com um painel de gigantes com  o João Barreiros, Cristina Alves e Luís Filipe Silva.

Se aceitei com entusiasmo, até porque ficaria finalmente com uma das famosas canecas da tertúlia, ao aproximar-se a data da intervenção a vontade de a fazer era muito pouca. Não por descrédito à tertúlia. Digamos que desde o momento em que recebi o desafio e o dia de o cumprir, um projeto muito especial da minha vida profissional acelerou enormemente e o tempo livre reduziu-se muito. Os workshops e demonstrações sucedem-se, o entusiasmo é muito, mas os dias passados a falar sobre impressão 3D, de volta da robótica, em eventos e demonstrações pesam nos ossos. Isso, e os quilómetros que tenho feito. Desta temporada dos Sustos, só compareci a esta sessão. Uma vergonha, bem sei, mas tenho chegado às sextas-feiras extenuado e a precisar das horas de sono para no dia seguinte me meter à estrada e ir para outros desafios.

É um mal que afeta outras vertentes. De tal forma que quando cheguei aos Aciprestes, a mulher do João Barreiros comentou que estava a assistir ao regresso do desaparecido. Pois, certeiro com muita graça e razão... e foi um regresso fugaz. Tenho falhado os Sustos e os jantares dos Devoradores de Livros. Confesso que me faz falta o mergulho nas culturas para equilibrar as tecnologias. Aliás, mais do que equilibrar, ganhar inspiração, porque (se me permitirem o convencimento), o que me distingue nas abordagens à tecnologia é a minha postura de incentivo ao seu uso como ferramenta criativa. Despedi-me deles com um até ao Sci-Fi LX. Aí não conto faltar.

As páginas de um livro de terror são umas das minhas recordações literárias de infância. Lembro-me de os meus pais me terem oferecido um monte de livros, teria para aí seis anos (fui um leitor precoce, ensinado a ler em casa por uma antiga preceptora e o método João de Deus). Desse monte, só me recordo de um, pelos arrepios e pesadelos que provocou. Recordo-me de o abrir e ficar assuatadissimo pelas imagens de um castelo sombrio, povoado por espectros que atazanavam o pato Donald e os seus amigos. Era, curiosamente, um livro da Disney... não revista, um livro ilustrado sobre a Casa Assombrada.

Sendo mais inclinado para os voos especulativos da FC, não há muito que vos possa oferecer no que toca ao horror na literatura. Gosto de um bom arrepio literário, mas não é esse o foco das minhas leituras. Aliás, nestes tempos sinto que estou a viver profundamente mergulhado na science fiction condition. Nos dias que correm, o verdadeiro horror para mim é ter uma daquelas peças de oito horas de impressão a falhar ao fim de sete horas e meia porque o filamento se enrolou, ou limpar um extrusor e tocar no nozzle esquecendo-me que aquela jiga-joga está aquecida a 200º. Acreditem que são coisas que provocam gritos lancinantes do mais profundo e doloroso horror.

Suspeito que depois das sessões anteriores e sugestões dos seus convidados, esta minha lista peque pela banalidade, pelo esperado. Sem querer fingir ser um expert em literatura de terror (e se o tentasse, o António Monteiro logo me desmascarava), deixo aqui uma lista de sugestões, que destaco não pela sua importância literária, qualidade intrínseca, mas por terem sido livros que me tocaram, arrepiaram, ou deixaram a sonhar com paisagens tenebrosas. Alguns, insuspeitos, surpreenderam-me pela sua ligação com a ciência e tecnologia.



Começo com o primeiro livro de terror que me recordo de ter devorado, Dracula de Bram Stoker. De tudo o que se pode dizer sobre essa obra fundamental no horror, diria que o aspecto que me surpreendeu foi a sua modernidade. Já imaginaram que este livro, à época em que foi publicado, poderia ser uma verdadeira obra de ficção científica sobre o futuro próximo? Suspeito que lido pelos olhos de um leitor do século XIX, Dracula pareceria quase futurismo próximo. O terror medieval do vampiro é combatido com as armas da ciência e tecnologia da época. As velhas superstições são complementadas por perseguições de comboio, ou personagens que registam as suas narrativas utilizando gravadores de som.



Se falamos de futurismo e terror, Frankenstein de Mary Shelley é o livro incontornável. Aliás, a sua associação com a literatura de terror é algo injusta, uma vez que no livro o monstro não é a criatura, é o seu criador, e a criação é feita com as ferramentas da lógica, química e electricidade, não com encantamentos cerimoniais do além. Diria que este romance é o mito original que, nesta era dependente da tecnologia, nos define.


Não se se recordam que houve um tempo antes da internet? Em que não havia Amazons, e-books e quando marcávamos encontros tínhamos mesmo que estar nos locais à hora certa, porque não havia telemóveis para comunicar. Soube de Lovecraft nesses tempos, através de artigos em zines e revistas, mas demorou até ter conseguido lê-lo. Os Demónios de Randolph Carter, na edição tenebrosas das Edições B, foi o meu primeiro mergulho na obra do bardo de Providence. Impossível não ficar apaixonado pelo misto feérico de exótico e orientalismo das suas visões do mundo dos sonhos que Carter atravessa.


At the Mountains of Madness e as geometrias não-euclidianas da cidade sob os gelos cimentaram o gosto, os contos fizeram o resto. Mesmo sabendo que pelos nossos padrões a misogenia e racismo de Lovecraft são complicados de aceitar.


Imajica, de Clive Barker, seduziu-me precisamente por esse aspecto de fantástico grotesco. Já não recordo o enredo e as aventuras, e honestamente não me sinto particularmente disposto a a revisitar o livro. O que ficou foi a visão sedutora, orientalista, exótica, das arquitecturas de mundos de fantasia invocados pelo autor. Books of Blood e Cabal à parte, a obra de Barker sempre me pareceu ser bastante banal, mais a apostar na escatologia sexualizada e a repetir-se nos esquemas narrativos.

E quanto ao terror literário em português?


Talvez a melhor descoberta tardia que fiz este ano, O Físico Prodigioso de Jorge de Sena seduz pela forma mágica como entretece o imaginário medieval, antigas lendas e um fantástico carregado de erotismo.

 
Quanto a Lovesenda de António de Macedo, podia salientar qualquer outro livro deste autor e cineasta, mas olho para este por ser o mais recente e potencialmente dos menos lidos (baixa tiragem, editora independente). Mistura uma capacidade fortíssima de nos levar ao ambiente do passado histórico com o fantástico místico e gnóstico que é a marca de Macedo.
 

Os Ossos do Arco Íris de David Soares: Foi o meu primeiro choque com o autor, e a descoberta que existia uma corrente cultural portuguesa contemporânea nas culturas de género. Poderia salientar qualquer outro livro deste autor, aponto este por ter sido indicador de algo maior. Um pouco isolado do contexto da FC e Fantástico nacional, suspeitava que alguns autores existiam, suspeita alimentada por números perdidos da Simetria que encontrava esquecidos em livrarias, ou os nomes portugueses nas capas azuis da lendária coleção da Caminho.

 
Museum of Horror de Junji Ito foi a obra que me deu a conhecer o mangá de terror japonês, com uma personagem arrepiante, Tomie. Fantasma de rapariga assassinada por um namorado obcecado, compraz-se fascinar homens e mulheres com a sua atração sobrenatural, levando-os à loucura homicida ou à degradação violenta do body horror. Sem redenção. Nesta série, o que o espírito procura não é o alívio da sua dor, mas a propagação abjecta da sua morbidez. É o aspeto que mais seduz nesta obra, o contraponto à nossa tradição que dita que o espírito malévolo apenas procura a o descanso final da redenção.



Os Vampiros de  Filipe Melo e Juan Cavia. É impossível não falar deste trio de autor e ilustradores, pelo impacto que tiveram no panorama da BD portuguesa com a trilogia Dog Mendonça e Pizzaboy, e, no caso específico de Filipe Melo, pela sua importância como ícone da cultura g33k. Neste seu livro mais recente, misturam história portuguesa contemporânea, hordas vampíricas e a claustrofóbica mentalidade de cerco de personagens cercados numa casa. O resultado é um livro eficaz, que tanto seduz os amantes do fantástico como os defensores de culturas mais "sérias".
 

Não consigo deixar de falar de uma das minhas obsessões pessoais. Dylan Dog é um dos meus fascínios, personagem de fumetti que investiga casos sobrenaturais. Não é nenhum Sherlock ou caçador de monstros, vive ao sabor dos casos com que se cruza e é pouco interventivo, muitas vezes um assistente nas suas aventuras. Tiziano Sclavi destila a história do terror literário e cinematográfico neste personagem melancólico, tocador de clarinete e construtor de um modelo de galeão eternamente inacabado, sempre a apaixonar-se pelas mulheres com que se cruza. Attraverso lo Specchio é um bom exemplo das suas aventuras, num cruzamento de Poe com horror clássico, Lewis Carroll e slasher movies.

 
Afastado da série, a personagem está entregue a outros argumentistas, dos quais se destaca Roberto Recchioni. Não tão texturado ou referencial como Sclavi, mas compreende bem o personagem. Mater Morbi é das suas melhores histórias, quase fetichista na iconografia.


Falar de Dylan Dog obriga a falar de Dellamorte Dellamore, romance em fragmentos de Sclavi, um dos pontos de partida do que se viria a tornar o personagem de fumetti. Francesco Dellamorte é o coveiro do cemitério da cidade esquecida de Buffalora, na Itália profunda. Como coveiro, a sua principal tarefa é manter os mortos enterrados, num cemitério onde poucos dias após o enterro os defuntos regressam a vida como zombies. O filme de Michele Soavi que passou, recentemente, no Nimas, faz justiça à bizarria desta obra, mas o livro vai muito mais longe no seu surrealismo tétrico.



Para finalizar, sugestões de leitura contemporâneas. Providence, um longo e profundo mergulho de Alan Moore no Mythos lovecraftiano, entretecendo fios condutores entre a sua obra, as dos seus seguidores (Derleth, Bloch e Chambers são referênciados) e influências culturais, com um final apropriado de apocalipse surreal que nos mostra que, talvez, as ficções que nos deleitam são m verdadeiro mundo em que habitamos.



Harrow County, a ser editado em português pela G.Floy, onde a ruralidade do Sul profundo nos anos 20 como palco para histórias de terror cheias de mitos tradicionais. Cullen Bunn aborda este título um pouco como um Faulkner do horror.

 Afterlife with Archie: e que tal pegar num comic de piadas adolescentes e transformá-lo num épico de terror com zombies e criaturas lovecraftianas? Uma proposta inesperada e divertida, onde Roberto Aguirre-Sacasa, acompanhado por Francesco Francavilla na ilustração, destrói a premissa dos comics da Archie - a vida de eternos adolescentes numa small town americana, com extremo prejuízo.



Para finalizar, as iconografias clássicas da Creepy, notável pelo formato influente de história curta com final macabro e irónico, mas especialmente como caldo onde germinaram alguns dos mais influentes artistas dos comics, Alex Toth, Bernie Wrightson, Steve Ditko, entre muitos outros, cujos grafismos inconfundíveis marcaram de forma indelével a estética dos comics de terror.

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