quarta-feira, 1 de março de 2017

Visões



Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

Há muito para reflectir neste filme avassalador, a começar pela história de um homem tão consumido pelo amor que acaba a vaguear pelos desertos americanos, sem memória, em busca de um local desolado que simboliza um paraíso de inocência perdida. O que me tocou especialmente foram o sentido da paisagem e a mediação da comunicação humana por utensílios tecnológicos. Neste filme, os personagens não conseguem exprimir a profundidade dos seus sentimentos senão através de formas mediadas, quer por filme, quer por gravação, quer até, nas fortíssimas cenas finais, através de um vidro baço onde dois antigos amantes se vislumbram, amargurados, por entre reflexos num vidro espelhado, confrontando os fantasmas do seu passado conjunto num diálogo mantido em telefones e intercomunicadores. Palavras demasiado difíceis de dizer cara a cara fluem, mediadas por ecrãs ou microfones.



A sobrepor-se a tudo, a omnipresença da paisagem colidida com um certo fascínio por uma américa exótica aos olhos de um realizador europeu, dos wide open spaces desértico da américa profunda, entrecortados pelas luzes de néon dos strip malls ou rampas de acesso e viadutos de auto-estrada. É na estrada que este filme realmente se desenrola, com a sua eterna promessa de poder ir sempre para lá do horizonte. Wenders explorou esta imagem com ângulos de câmara inquietantes, mostrando a estrada do ponto de vista do condutor, olhando para nós através do espelho retrovisor. É toda uma estética de não lugares, paragens de estrada, vias infindas entrecortadas por motéis e restaurantes de fast food, de luz crepuscular onde o ambiente é iluminado tanto pelo azul arroxeado do céu como pelas luzes dos automóveis, néons dos negócios de beira estrada ou reflexos nos arranha-céus nas raras zonas urbanas. Este sentimento de espaço, trazido pela forma como Wenders o filma, amplia-se com a assombrosa e inesquecível banda sonora de Ry Cooder.

O Espaço Nimas repôs este filme, em cópia restaurada, como parte do seu festival dedicado ao cinema de Wenders. Este é daqueles filmes que tem de ser visto no ecrã de uma sala de cinema para ser realmente sentido. Só num ecrã de grandes dimensões se sente o quanto os dilemas humanos são engolidos pela paisagem omnipresente.

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