terça-feira, 15 de novembro de 2016

Visões


Doctor Strange (Scott Derrickson, 2016)

O melhor momento deste filme foi o esperado cameo de Stan Lee. Apareceu como velhote num autocarro, a rir-se incrédulo enquanto lia As Portas da Percepção de Aldous Huxley, sem se aperceber que à sua volta a noção de realidade se diluía de formas inesperadas. É esse o grande ponto forte deste novo filme do universo cinematográfico da Marvel, a forma como se atreve a usar os efeitos especiais para desafiar as percepções dos espectadores. Em Dr. Strange, o real é mutável, cheio de pontos de contacto com realidades paralelas às quais os magos, detentores da linguagem que desbloqueia o código fonte do real, conseguem aceder e manipular.

Este constante desafio à percepção torna-o um filme interessante. Claro, é entretenimento popcorn, mas tempera a habitual luta entre seres de poderes e capacidades hiper-reais com um fortíssimo surrealismo visual, que está no filme não só como efeito mas como vénia aos criadores do personagem. O filme soube caminhar entre o entretenimento puro e o respeito pela iconografia da personagem. O visual surreal que Steve Ditko estabeleceu para Doctor Strange nos anos 60 e 70 ganhou toda uma nova vida graças aos efeitos digitais.
 

Já se sabe que o universo cinematográfico da Marvel difere da continuidade dos comics. Neste aspecto, há neste filme elementos que funcionam, e outros que irritam os conhecedores do historial do personagem. Pessoalmente, a revisão do Ancião como mulher pareceu-me interessante, bem como toda a actualização da história de origem de Strange. Já o rever Mordo como um grande amigo de Strange vai contra todo o historial do personagem. Também não percebi muito bem como é que Wong é promovido de fiel servidor de Strange a um bibliotecário badass. Ou melhor, percebo. Tratam-se de mercados internacionais, dos quais o chinês é o mais importante. Promover um sidekick servil de origem chinesa a personagem principal é uma boa jogada para atrair público na China, mercado que ficou aberto graças à alteração que mais me incomoda. Para não ferir as sensibilidades do governo chinês, Strange recebe a sua educação mística no mosteiro nepalês de Kamar-Taj, colocando de parte toda a história da tibetana Shamballa. Porque menções ao Tibete em filmes que olham com avidez para o mercado chinês são um grande senão.

Filme de entretenimento puro, visualmente espantoso, faz justiça ao personagem. Diga-se que Benedict Cumberbatch, com aquele aspecto alto e desconcertante, é perfeito para encarnar o personagem, e fá-lo deixando aos espectadores a nítida sensação que se está a divertir muito com isso.

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