sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ficções

Rios de Sangue, Pedro Cipriano: Basta um pequeno detalhe. Somos mergulhados numa guerra de trincheiras, sob o ponto de vista de um soldado que tem de conviver com a morte, dureza dos combates diários, sobrevivência no ambiente hostil e manutenção da sanidade, enquanto se defende do ataque de inimigos que não nos são explicados. Parece, em tudo, uma narrativa inspirada nas trincheiras da I guerra mundial, excepto pelo tal pequeno detalhe que faz toda a diferença (e, de facto, torna esta história uma narrativa de género fantástico): a velha arma que o soldado empunha foi feita nos tempos da antiga União Europeia.

Totem Poles, Rudy Rucker e Bruce Sterling: Suponho que Rucker ficou encarregue do weird e Sterling do favela chic. Estes dois veteranos juntam-se para contar uma história sobre invasões alienígenas benignas, que estão a salvar o planeta, e os puristas que os combatem até serem digeridos pelas entidades alienígenas, tornando-se forças de perfeição planetária.

Sgt. Augmento, Bruce Sterling: Depois de uma temporada como soldado nas forças progressivamente automatizadas de combate americanas, um veterano dedica-se a suplementar o seu rendimento mínimo garantido servindo de cobaia a empresas que se dedicam a desenvolver algoritmos de autmatização a partir da observação do trabalho de humanos. O veterano sabe que está a contribuir para que drones sejam cada vez mais prevalentes na substituição de humanos nas tarefas, mas não se preocupa muito com isso.

I come from future, Darine Hotait: Mais experiência linguística do que conto coerente, foca-se demasiado no estilismo de uma linguagem arcana futurista para funcionar como narrativa coerente.

Landscape with intruders, Jean-Claude Dunyach: Um vigia de floresta, habituado à solidão que mitiga com bebidas de destilação ilegal, acorda ressacado depois de uma noite de consumo liberal sob as estrelas infestado por uma estranha praga. Descobre-se colonizado por seres minúsculos, que exploram as geografias do seu corpo até, talvez de conhecimento saciado, lançarem um foguetão que os levará a outro mistério.


Folding Beijing, Hao Jingfang: Vencedor dos prémios Hugo, este conto é um poderoso comentário às desigualdades económicas e sociais numa era de avanços tecnológicos. A futura Beijing é uma cidade origami, que se dobra ciclicamente em três. As élites e aqueles que as servem vivem na primeira cidade, espaço de luxos e refinamento. A segunda cidade está reservada às classes médias, fundamentais para manter os serviços de que depende a sociedade. A terceira está reservada aos excedentários, aqueles que estão à margem de uma sociedade progressivamente automatizada. Sem fábricas ou campos, agora trabalhados por drones, resta aos habitantes trabalhar na reciclagem dos desperdícios da cidade. Um processo que também poderia ser automatizado, mas não o é para manter as massas empregadas. A cidade dobra-se sobre si própria regularmente. Os habitantes das cidades dentro da cidade ficam protegidos dentro de casulos enquanto dura o período da cidade que está activa. É impossível não ler a reflexão sobre as tendências tecnológicas, económicas e sociais da modernidade neste retrato de três mundos que, coexistindo num mesmo espaço físico, estão separados por barreiras inultrapassáveis.

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