terça-feira, 9 de agosto de 2016

The Ring: O Aviso


Koji Suzuki (2005). The Ring: O Aviso. Porto: Civilização Editora.

Recordo ter sido apanhado de surpresa quando vi o filme baseado nesta série de livros. O japonês original, entenda-se, não a versão edulcorada para agradar às audiências generalistas. Intrigou a figura arrepiante do monstro, Sadako, a misturar sensualidade com grotesco, inesquecível no poder daquele olho arregalado no meio do farto cabelo. Surpreendeu o conceito de horror, onde não há um acto de redenção que liberte as criaturas da maldição a que estão sujeitas. É um dos factores que define a tradição europeia do terror, a redenção que liberta o destino a que estão condenadas as assombrações. Quer seja por exorcismo, vingança, perdão ou repouso. Este elemento está ausente desta série, onde o tradicional exercício de busca pelo elemento redentor que irá salvar aqueles que estão assombrados pela criatura é inútil.

É uma característica que percebi ser inerente ao horror japonês, daquilo que vou conhecendo do género. O trabalho em mangá de Junji Ito é similar, com maldições ou criaturas que perpetuam o seu terror e violência, num ciclo imparável. Diria que também é uma boa forma de alimentar longas séries literárias, mangá ou cinema, sem ter de recorrer a artifícios para manter a premissa de base.

O filme, por necessidade da linguagem cinematográfica, é conciso no horror e forte na estética. Já o livro em que se baseia segue o caminho oposto, com uma deliberada estética de banalidade suburbana contraposta ao horror inominável de Sadako. A prosa oscila entre o ambiental e a narrativa acelerada. O pormenor da assombração depender de uma cassete de vídeo torna-o datado, colocando-o num tempo específico, mas sem que com isso a história perca força. Se no filme a salvação daqueles que visionam a cassete amaldiçoada que liberta Sadako está no levar outros a ver as cenas assombrosas gravadas em vídeo, o livro leva muito mais longe esta ideia. Sem redenções, o objectivo do monstro é propagar-se, mantendo o ciclo sobrenatural. Liberta aqueles que funcionam como vector de infecção viral, e elimina quem não é capaz de a transmitir. Esta vertente, intuída no filme, torna-se o foco final de um livro que, pegando nos estereótipos clássicos da literaturas de terror, troca as voltas ao leitor com a inevitabilidade do mal que assombra as personagens.

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