domingo, 10 de julho de 2016

Too many clever opinions just make you confused


20 anos depois... isto parece tão actual. A meio de um dos trade paperbacks que reúne a temporada de Mark Millar como argumentista de Swamp Thing, deparo-me com esta bizarria. Escrito em reacção ao ressurgir do conservadorismo americano nos anos 90, com políticos a apelar a valores bafientos e a sublinhar o anti-progressismo, American Cop satiriza toda aquela ideologia de direita conservadora que rejeita a diversidade étnica, a multiculturalidade, o feminismo ou a liberdade sexual.

Millar solta todos os demónios neste estranho one shot, em que revê Chester Williams, o eterno hippie, companheiro do Monstro do Pântano criado por Alan Moore na sua temporada épica, que definiu o personagem. Millar faz Chester arrepender-se do liberalismo contra-cultural, e transforma-o num diligente agente da polícia, daqueles que não hesita em usar o casse-tête sobre qualquer um que não se enquadre no consenso conservador do homem branco tradicionalista e da mulher recatada, nem pestaneja ao eliminar a tiro emigrantes ilegais. A caricatura é grotesca e assustadora, porque retrata demasiado bem a misoginia, racismo, estreitamento mental, violência e anti-intelectualismo inerente a este tipo de ideologia. "I used to read books too, but now I see what they do to people, Liz. Too many clever opinions just make you confused (...)" diz, ao curar Liz, outra personagem clássica da série, do seu lesbianismo com um beijo másculo que logo a convence a casar-se, e aceitar os bofetões de um homem que não admite que os carinhos da mulher lhe impeçam as saídas à noite com os amigos. Saídas para beber umas cervejas e espancar negros bem vestidos que se atrevem a ser advogados.


A história termina com Chester a realizar o sonho americano, tornando-se presidente apelando aos piores valores do conservadorismo. Esta prancha, a penúltima do comic, arrepia porque... estamos em 2016, e vemos nos media a ascensão de Donald Trump como candidato à presidência americana, alicerçando o seu inesperado sucesso através do apelo escatológico aos mesmos valores de baixeza moral, conservadorismo bafiento e regresso ao tempo em que minorias étnicas, culturais ou sexuais se mantinham caladinhas, reduzidas à sua insignificância, sem se atrever a contraria os valores justos do homem (branco) de bem. Tudo o que Mark Millar satirizou neste comic, editado em 1996, chega-nos hoje pelo olhar dos media nas reportagens sobre as lutas políticas reais de Trump nos Estados Unidos, ou na ascensão dos partidos xenófobos de extrema-direita de inspiração fascista, um pouco por toda a Europa. Arrepiante, e a incentivar uma certa descrença na capacidade de evolução da consciência humana.

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