sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Confessions d'un Automate Mangeur d'Opium



Fabrice Colin, Mathieu Gaborit (2015). Confessions d'un Automate Mangeur d'Opium. Editions France Loisirs.

Este é  um livro claramente apaixonado pela estética Steampunk. Delicia-se a criar um mundo novecentista onde a iconografia fim de século de uma Paris no meio da grande exposição mundial é tomada de assalto por dirigíveis, aeróstatos, carruagens sem cavalos e autómatos. Com algum vapor e muito éter, substância misteriosa de efeitos nefandos sobre a fisiologia humana e miraculosa a animar as tecnologias futuristas debruadas a latão polido deste passado que nunca aconteceu. Neste aspecto, o livro é sólido, mergulhando o leitor em momentos visualmente arrebatadores.

Quando o deslumbramento estético é prevalente, algo se perde. Neste caso é tudo o resto. A história promete algum interesse, com uma actriz cuja beleza oculta as tendências sáficas e o seu irmão, um alienista apostado no controle total dos seus pacientes através de panopticons como metodologia psiquiátrica, a perseguir um autómato assassino que escreve poemas e parece ser provido de inteligência autónoma. Autómato esse que parece estar relacionado com um antigo paciente do alienista, desaparecido misteriosamente e riscado dos processos do hospital, e estranhos eventos numa escavação arqueológica em Angkor. Parece que nas ruínas do Camboja colonizado por franceses se oculta um dos segredos da imortalidade através do éter, cobiçado pelos ingleses.

Poderiam ser bons tópicos para uma divertida história (e hey, coisas mais bizarras há, lembrem-se das premissas dessa maravilha de bizarria steampunk que é a série The Bookman de Lavie Tidhar). Infelizmente, estão acorrentados ao serviço da estética, servindo como desculpa para os autores se deliciarem a detalhar cenários. O encadeamento da acção oscila entre o confuso e o previsível. Subtileza não é o forte deste enredo. Registo um exemplo: percebemos logo o que é o autómato assassino quando a meio do livro a actriz penetra no santuário do vilão supremo do romance, um construtor de autómatos que serve a alta sociedade parisiense mas se dedica às mais insanas e intricadas criações mecânicas nos subterrâneos da sua grande loja. Quanto este génio do mal afirma que o seu autómato de estimação contém o cérebro de um cão, todo um pilar estruturante do livro é revelado, mas os autores agem como se nada se passasse quase até ao fim. Até custa ler esta acefalia.

Pois. Graaande spoiler ali em cima. Grande spoiler. Depenem-me e mergulhem-me num tonel de éter enfiado dentro de um motor a vapor. Mas não nos êmbolos, por favor, que são dolorosos.

Dentro desse gigante mal conhecido que é a FC francesa, o Steampunk é um sub-género que fascina os gauleses. Transparece para o público europeu mais na vertente de banda desenhada, com o claro apelo visual. Afinal, quanta da FC francófona ultrapassa realmente a barreira da tradução? Este livro promete - e afirma, logo na introdução, um deslumbre visual com a estética única deste género. Realmente cumpre a promessa, mas de forma oca, colocando a iconografia acima da narrativa.

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