terça-feira, 12 de janeiro de 2016

L'Impératrice de Therm

 
K.-H. Scheer, Clark Darlton (2011). Perry Rhodan #282: L'Impératrice de Therm. Paris: Fleuve Noir.

Séries de space opera de aventura como a veterana Perry Rhodan tornam-se interessantes pela liberdade criativa contida nas fronteiras de um espaço conceptual muito restrito. Não estando obrigadas à plausibilidade ou à especulação informada, podem expandir-se nas direcções mais bizarras ou intrigantes. É o lado positivo de uma Ficção Científica mais virada para entretenimento, socorrendo-se de estruturas narrativas repetitivas centradas nas aventuras de um punhado de personagens. É também o que ajuda a explicar a longevidade de séries como esta. Sendo repetitivas, dão sempre aos leitores algo que esperam e conhecem, misturado com algo de novo e improvável.

Este volume das longas aventuras de Perry Rhodan começa com uma longa cronologia de um universo ficcional que se iniciou nuns longínquos anos 50, com o cruzar entre a missão lunar falhada de Rhodan e os decadentes arkónidas e um futuro longínquo onde o herói imortal sulca o universo em busca de um planeta Terra oculto noutra galáxia. Sim, é estranho, e o caminho para lá chegar não menos bizarro, em episódios quinzenais de cinquenta páginas que ainda hoje não chegaram à conclusão.

L'Impératrice de Therm reúne quatro episódios, originalmente publicados em 1977, em que Rhodan navega pelo espaço na gigantesca nave geracional Sol em busca do segredo da localização do planeta Terra (certo, algo óbvio na FC, mas muito complicado na cronologia da série). Cruza-se com a Imperatriz de Therm, uma espécie de inteligência artifical que controla todo um sector galáctico e se prepara para uma guerra sem quartel com outras inteligências artificiais que se espalharam pelo espaço. Uma delas, Bardioc, controla a zona da galáxia onde se oculta a Terra perdida.

Reunido quatro episódios da série, embora tal não se note na estruturação desta tradução francesa, lemos quatro aventuras de um Perry Rhodan que só numa delas desempenha um papel importante. A primeira é a mais interessante, que nos mostra a origem da inteligência artificial. Numa civilização estelar em decadência acelerada, dependente dos seus sistemas informáticos (tiotrónicos, porque estes textos datam de uns anos 70 pré-internet), faz um gesto desesperado e transmite todo o seu conhecimento numa onda que irá atravessar o espaço enquanto a civilização que lhe deu origem cai na senescência. Milénios depois, a onda cruza-se com um planeta onde encontra formas de vida cuja evolução consegue controlar. Origina-se aí o império de Therm, onde uma inteligência artificial que reside no interior de estruturas cristalinas vive em simbiose com os Kelsires, uma civilização matriarcal naturalista e telepática cuja evolução no seu planeta foi condicionada pela onda de Therm, e com os Choolks, uma civilização tecnológica que dá à imperatriz a forma de se deslocar pelo espaço. Este voo quase surreal de biologias alienígenas, civilizações perdidas e formas de vida não biológicas é o melhor momento deste livro.

Nos restantes episódios, Rhodan e a nave Sol entram na órbita de Therm, planeta coberto por uma massiva matriz cristalina, e entram em contacto com a imperatriz. Esta dar-lhes-á dois desafios, para perceber se os acólitos do Estelarca (título algo pedante do imortal Rhodan) serão bons aliados na luta que antevê contra a inteligência artificial inimiga mais próxima. O prémio será o revelar da localização do planeta Terra. Estes desafios formarão os restantes dois episódios. Num, um destacamento da nave Sol dirige-se a outro planeta do sistema Therm, local misterioso onde as matriarcas Kelsires são exiladas no final das suas vidas. O mistério prende-se com o lado negativo da onda civilizacional que deu origem a Therm, cujo lado negro se cristalizou num planeta onde a luta do bem contra o mal, ou das luz contra as trevas, tem de ser vencida para equilibrar o sistema. No episódio final, outro destacamento da nave Sol irá explorar um misterioso continente isolado do planeta Therm, onde descobrem qual é o destino que espera os viajantes estelares que entram no espaço controlado pela Imperatriz. Nesse continente, centenas de espécies alienígenas inteligentes estão sob quarentena, aguardando  pelo momento em que a Imperatriz as considera aptas para lhes devolver a liberdade. Um momento que pode demorar gerações inteiras a surgir, ou então nunca acontecer.

Quatro de uma série que conta com mais de quatro mil episódios. Perry Rhodan é algo frustrante neste aspecto. É, talvez, hoje fisicamente impossível que alguém a venha a conhecer por inteiro. São demasiados volumes, numa continuidade invejável, inaudita e praticamente desconhecida fora da Alemanha.

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