segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Comics


2000AD #1950: Está de regresso Brass Sun, o épico clockpunk de Edginton e Culbard. Promete novos mergulhos nos mundos contidos no gigantesco planetário mecânico cujos habitantes se esqueceram que estão interligados por um intricado mecanismo de relojoaria. Agora, é impressão minha ou o simulacro de um criador desaparecido é mesmo muito parecido com Kurt Vonnegut?


Providence #05: Já percebemos o quanto o conhecimento de Moore dos contos de Lovecraft é enciclopédico. Ao revisitar a obra do autor, consegue urdir uma teia que tem tocado em praticamente todos os principais contos, integrando-os numa narrativa coerente que vai muito para além dos mythhos enquanto mundo partilhado. O desafio ao leitor é elevado, especialmente porque Moore não alude de forma óbvia aos personagens e às histórias. Quem leu Lovecraft apanha as pistas, percebe o que se esconde debaixo do véu. Os locais e os nomes são alterados, mas o cerne está lá. Neste quinto volume somos levados à universidade do Miskatonic e à velha Arkham sem que estes nomes sejam alguma vez citados. Moore transpõe a geografia real da Nova Inglaterra para a ficcional da obra de Lovecraft. Mas as pistas estão lá. Quando o incauto jornalista, aspirante a escritor (ele próprio um retrato físico fiel de Lovecraft enquanto jovem) pisa os corredores de uma universidade, sabemos que é a do Miskatonic, que as ruas da cidade são as da gótica Arkham, que a quinta que visita assolada por um estranho meteoro é The Color Out Of Space, que o médico com que cruza é Herbert West Re-Animator mal disfarçado sob o apelido de North, que a casa decrépita habitada por uma simpática velhota que raramente lá está e onde sofre estranhas alucinações  é água furtada onde forças ocultas de outras dimensões repassam para a nossa realidade de The Dreams of the Witch-House. Sendo uma revisitação de Alan Moore, não esperem facilitismos ou concessões indulgentes ao pouco conhecimento que os leitores poderão ter dos Mythos e da obra de Lovecraft. Terminado de ler este número, cada vez mais me pergunto o que é que me escapa, que referências a contos que já esqueci perdi, se o trabalho de escritores como Derleth ou Bloch também é referenciado por Moore, algo de concebível se recordarmos que o primeiro número de Providence vai beber muito aos contos de The King in Yellow de Chambers.


The Sandman: Ouverture #06: Termina como começa, o que é apropriado. Este regresso de Sandman sempre foi assumido como uma prequela do fantástico e marcante arco narrativo legado por Neil Gaiman. A aventura esotérica entre universos que colapsam conta-nos o que deixou Morpheus tão susceptível de ser capturado por ocultistas de segunda linha no início da série. E tudo o resto é história. É apropriado que encerre exactamente como iniciou, repetindo a primeira vinheta de Sam Kieth no longínquo Sandman #01. Este regresso fugaz foi uma delícia, recordando a influente série, trazendo novamente o estilo literário de Gaiman aos leitores de comics, e com um fortíssimo sentido estético de J.H. Williams III, completamente à solta e a dar o seu melhor em pranchas visualmente espantosas. Também é de sublinhar o ser um regresso comedido, curto coda adicionado ao historial do personagem, sem ambições de reboot que iria esgotar a série.

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