quarta-feira, 15 de julho de 2015

Proxima


Stephen Baxter (2013). Proxima. Londres: Gollancz.

Neste primeiro volume de uma nova série Stephen Baxter dá-nos space opera num assumido estilo clássico. Estamos a 300 anos do nosso mundo contemporâneo, com a humanidade a recuperar das convulsões políticas e económicas que, no rescaldo de um quase colapso ambiental, remodelaram o mapa do planeta e geraram uma nova cultura global que se espalha pelo sistema solar.

Cultura global, mas a emular a guerra fria, com dois grandes blocos a competir pelas vastidões espaciais. Os chineses, apoiados em tecnologia convencional, colonizam Marte e asteróides. Mercúrio e a Lua são domínios de umas Nações Unidas que descobriram, no planeta mais próximo do sol, uma matéria de propriedades exóticas que permite gerar energia para acelerar naves espaciais a velocidades sub-lumínicas. Controlar este recurso gera tensões cada vez mais profundas com os Chineses, que se irão resolver numa guerra cataclísmica que irá aniquilar a vida na Terra e planetas mais próximos. A intervenção de Inteligências Artificiais, vistas com desconfiança por uma humanidade que não as consegue desligar, não chega para travar uma guerra que recupera, no futuro longínquo, a mais antiga das pulsões humanas pelo controle de recursos.

Haverá sobreviventes, não coincidentemente os personagens mais marcantes da narrativa. Na Terra e em órbita, uma física que conhece bem as propriedades da estranha matéria que permite à humanidade acelerar as suas naves espaciais descobre-se levada pela maré dos acontecimentos. Envolvida com uma inteligência artificial que tenta intervir de forma oculta nos destinos da humanidade, com uma meia-irmã gémea cujo aparecimento inesperado implica uma reescrita da história humana. É principalmente através dos seus olhos que acompanhamos um dos grandes fios condutores desta história.

A outra grande linha narrativa prende-se com os sosbreviventes de uma tentativa de colonizar um planeta extra-solar habitável na órbita da estrela Próxima Centaurus. Missão das Nações Unidas, leva como incautos colonos grupos de prisioneiros condenados pelos mais variados crimes que serão despejados no planeta inóspito. É uma vertente muito negra da aventura espacial, claramente decalcada na colonização britânica da Austrália, mas também fascinante pela vida nativa que Baxter descreve neste planeta extra-solar: comunidades de seres similares a galhos, seguindo uma lógica vegetalistas, com uma cultura milenar estática comunicada por movimentos e feromonas. Neste novo planeta assistimos à luta pela sobrevivência de um personagem com um passado misterioso, que esteve em sono criogénico durante os tempos convulsivos que antecederam a nova ordem global, com uma fiel inteligência artificial e a família que acaba por estabelecer com uma oficial das nações unidas deixada para trás pela expedição colonizadora. A sua filha tornar-se-á a primeira criança humana nascida num planeta extra-solar. Esta inteligência artificial, originalmente desenhada para operar uma espécie de nano-fábrica-impressora 3D-unidade médica-laboratório de observação, é tão curiosa e preocupada com a sua obsolescência planeada, que é de longe a mais humana e intrigante das personagens criadas por Baxter nesta série.

O grande elemento que une estas linhas narrativas e que dá o cerne à space opera é o mistério da matéria exótica que possibilita as viagens espaciais, que se revela claramente artefacto tecnológico de uma civilização desconhecida. A revelação surge com o impossível, a descoberta de uma escotilha na superfície de Mercúrio que o interliga com o planeta habitável de Próxima Centauro. Uma outra escotilha na superfície do mundo alienígena mostra-nos que esta esquecida civilização parece ter deixado pontos de ligação que não só atravessam o espaço-tempo como parecem interligar diferentes universos.

Algo que é intuído aquando da descoberta da primeira escotilha, que parece reescrever a história humana ou, hipótese mais plausível, transporta a física de renome (e com ela os leitores) para um universo paralelo com divergências quase imperceptíveis com o do início do livro. Uma ideia que se fixa na conclusão deste primeiro volume, com o antigo colono, a questão mal respondida que é a irmã gémea da cientista e o núcleo da simpática inteligência artifical a atravessarem as câmaras interiores da nova escotilha e emergirem num planeta desconhecido, aparentemente colonizado por legiões romanas. Um intrigante ponto de partida para o segundo volume, que mantém também em aberto os destinos da cientista, da nativa da nova colónia e de uma cópia da mais interventiva das inteligências artificias terrestres que se refugiam do iminente conflito numa nave espacial. Esta será levada pelas ondas de choque de uma explosão terminal provocada pelo abalroar por um míssil chinês composto por naves espaciais atiradas contra a jazida de matéria exótica na superfície de Mercúrio. Esta explosão de matéria exótica aniquilará a vida na Terra mas terá como efeito secundário atirar a nave dos refugiados para um outro universo.

Proxima é aventura clássica, cheia de deliciosas especulações para os amantes de infodumps e a meter-se com elegância nas teorias sobre multiversos.  Um livro que se lê como um delicioso docinho para os fãs mais arreigados de ficção científica, que pretende ser apenas aquilo que é: ponto de partida para uma série de space opera, entretenimento bem urdido em literatura de género que equilibra a aventura com especulação científica. Ou seja, ficção científica pura e dura. Bem escrito, é daqueles livros que provoca noites em claro pela leitura compulsiva.

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