domingo, 12 de abril de 2015

Anicomics 2015


Carlos Pedro a autografar o meu exemplar de Solomon, enquanto lá fora os cosplayers de deliciavam com a primeira eliminatória do concurso de cosplay. Ao lado, as fantásticas ilustrações de Inês Ferreira.

Garanti a mim próprio no ano passado que não regressaria ao Anicomics. É um tipo de evento que tem o seu espaço natural mas que não se enquadra na minha tipologia de público-alvo. No ano passado fiquei desiludido com o foco excessivo no cosplay, falta de oferta bibliófila para lá das ofertas manga da loja da Kingpin, e tendência para o espaço exíguo da biblioteca Orlando Ribeiro se tornar sufocante com tanta gente em tão pouco espaço. Isso, e o preço nada simbólico cobrado à entrada do evento, que certamente cobrirá todos os custos da organização e mais qualquer coisinha. Mas, desafiado pelo editor do I Dream in Infrared, lá fui. A impressão com que saí de lá no ano passado confirmou-se, apesar de este ano se notar uma maior abertura a criadores.


Criadores e fãs numa das muitas bancas de arts & crafts anime/manga

É isto, do meu ponto de vista, o melhor do festival. Espaços onde criadores individuais e pequenas lojas estão em contacto com os fãs do género. Pensem feira de artesanato para fãs de manga/anime e ficam com uma pequena ideia da vibração desta vertente do Anicomics, que se espalha por todo o espaço da biblioteca. O festival como ponto de encontro de fãs nota-se perfeitamente quando estamos dentro do auditório com Mário Freitas, editor da Kingpin, argumentistas e ilustradores a falar de lançamentos e a divulgar a sua linha editorial para o próximo ano para uma audiência de cosplayers transfixados pelos seus jogos no telemóvel ou tablet, claramente dispostos a aturar a estopada dos cotas a falar de livros que não lhes interessam para poder guardar um lugar sentado para os espectáculos de dança J-Pop e concursos de cosplay.


Ajuntamentos de cosplayers entre o interior e exterior da BMOR

O cosplay é mesmo o ponto forte e chamariz do Anicomics. É uma das raras oportunidades para os fãs de comics, manga/anime e gaming desempoeirarem a criatividade e vestirem a pele dos seus personagens favoritos. Diria até que sem a componente cosplay o Anicomics já há muito teria desaparecido como evento da banda desenhada em Portugal. O nível dos cosplayers é elevado, e para cada patético bebé peludo (ou enfermeira zombie de generosas formas a rasgar o frágil tecido da minúscula farpela) havia dezenas de fatos primorosos. Esta foto, tirada da varanda do passadiço da biblioteca, mostra um pouco da diversidade de fatos. Uma foto infeliz, tive o azar de centrar no mais espantosamente mau dos cosplayers, mas se se abstraírem das fraldas topem as lolita genéricas adereçadas à perfeição, a princesa disney, o aventureiro steampunk ou os guerreiros mutantes. Uma pequena amostra dos deliciosos cosplays que se espalhavam pelo evento.


Alex, without her droogs.

Dos quais, confesso, o meu olhar foi atraído por este. Não pela lolita genérica em apertamento de corpete, mas em quem a está a apertar. No meio de tanta personagem de manga estaria longe de imaginar que depararia com um (tecnicamente uma) Alex da Laranja Mecânica, canalizando na perfeição a imortal iconografia que Stanley Kubrick deu ao livro de Anthony Burgess. Não era de longe o mais perfeito cosplay na zona limítrofe, mas foi sem dúvida o mais erudito.

Saio de lá com a minha opinião reforçada. O Anicomics é, em essência, um evento à medida de Mário Freitas e da Kingpin Books, que teve a sorte ou a inteligência de apostar nos fãs do cosplay. Há muito pouco, quase nada, para além disto. Sublinha-se uma maior abertura a criadores individuais e lojas dedicadas aos fascinantes adereços anime/manga. A oferta comercial fica-se pelo merchandising, algum manga e edições da Kingpin (vim de lá com algumas coisas, claro). Recordo vagamente ter lido por aí que este ano o Anicomics teria maior presença de outras lojas de banda desenhada, mas não dei com elas. Só se se estiverem a referir à Casa da BD, que estava a vender adereços inspirados no manga.

O festival assume-se como uma iniciativa totalmente privada num espaço público e certamente terá os seus custos, mas confesso que gostaria de ser mosquinha digital e penetrar nas folhas de cálculo dos balancetesda Kingpin para perceber se oito euros e meio por dia por bilhete (mais barato para quem compra antecipadamente) mal chega para cobrir custos ou dará prejuízo. Perante as enchentes no espaço exíguo da BMOR que se espraiam pelas redondezas a sensação com que se fica é a oposta, claro. Não que venha daí mal ao mundo. Afinal, o evento é privado, e aposto que a tentação de fazer trocos fáceis é elevada. Só lá vai quem quer. Chama-se a isto bom marketing e sólido conhecimento do mercado. Devo dizer que o ser assumidamente comercial é bom. Outros eventos do género tentam disfarçar o lado comercial com pretenciosismo cultural. A Kingpin é um negócio e diga-se que os livros não se editam sozinhos ou chegam aos leitores sem a vertente económica da cultura.

O evento decorre entre 12 e 13 de abril em Telheiras. Hoje deve ter sido interessante o painel onde esteve a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas. O Bruno Campus, repórter X de tudo o que é evento de BD por Portugal, está a cobrir detalhadamente o Anicomics 2015 no aCalopsia.

Este evento continuará, espero, como momento privilegiado de encontro dos cosplayers portugueses, com mostras do alto nível deste hobby. Continuará como evento assumidamente comercial. E continuará a não ser para o tipo de público em que me insiro, mas mantendo-se como evento interessante para fãs de manga/anime e cosplay.

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