segunda-feira, 2 de março de 2015

Comics


2000AD #1919: Borag Thung! A comemorar trinta e oito anos, a venerável revista semanal inglesa não está a passar por uma fase muito interessante. Há uma história de Judge Dredd no espaço, a lutar contra os juízes negros a bordo de uma nave geracional que alberga a elite financeira de MegaCity1. A ironia das elites abandonarem a Terra à sua sorte e fugir para o espaço para serem caçadas por monstros sai diluída numa estrutura narrativa de luta e sobrevivência, mas pelo menos a nave geracional inspira-se nas naves espaciais do filme Silent Running. Também há esta curiosa Survival Geeks, série a puxar mais para o cómico de inspiração sci-fi que está a misturar estilo steampunk com bebés Cthulhus. A premissa da série passa por uma casa habitada por g33ks puros e uma rapariga normal, que se desloca através de mundos paralelos. Nada de particularmente novo, apesar do toque g33k chic. Mas não pude deixar de reparar neste "conversational gallifreyan".


Bodies #08: Não percebi. Esta era uma das mais interessantes séries da Vertigo, um mistério com mortes ritualísticas que saltava entre diversas Londres do passado, presente e futuro. Termina de forma abrupta, com a longa colheita que sempre assumimos como uma espécie de catástrofe a acontecer, revelando-se como um equívoco de ocultistas que pensam que sacrifícios sangrentos são a resposta para invocar divinidades plenas de bondade. O desvio ao expectável é interessante, mas depois de sete edições a elevar o suspense este final hippie cheio de declarações de amor é... anti-climático.


They're Not Like Us #03: Algo que sempre me incomodou no simplismo dos comics de super-heróis é a forma como assumem que seres supra-humanos se sentiriam iguais às pessoas normais e não as veriam como gado ou seres inferiores a dominar. Conformam-se e defendem as estruturas sociais de um mundo povoado e dominado pelos seus inferiores. É uma forma ingénua de conceptualizar equilíbrios de poder, que assume que seres diferentes de nós partilhariam dos mesmos valores e sentiriam a responsabilidade de proteger os mais fracos. São raros os comics do género que encaram super-humanos como uma espécie de demiurgos que se entretêm com atrocidades cometidas sobre as formigas humanas. Este comic da Image é uma dessas excepções, com a história de uma jovem telepata a aprender a real extensão dos seus poderes graças à ajuda de um grupo de jovens com poderes misteriosos, capazes de manipular a percepção dos que os rodeiam. Grupo que oscila entre a sociopatia, cleptomania pura e, sendo capaz de ler os pensamentos mais íntimos de cada um, propensão para violência extrema aplicada àqueles que consideram dignos de castigo. Claro, a humanidade normal, desprovida e desconhecedora de poderes telepáticos e telequinéticos é vista como composta por criaturas inferiores. É esse lado impiedoso e amoral da série que a torna interessante. Mas suspeito que a tentação de levar a personagem principal a revoltar-se contra o sentimento de superioridade impune e regressar ao moralismo humanista acabe por tomar conta da série.


The Wicked + The Divine #08: Confesso que não consigo gostar desta sucessora do excelente Phonogram, série de Kieron Gillen sobre magia e música que acabava mais por ser um hino ao que mais nos toca na música pop do que sobre encantamentos mágicos. Gillen continuou o espírito de Phonogram nesta nova série, e se a colisão entre cultura mediática das celebridades e divindades milenares que reencarnam ciclicamente e durante quatro anos caminham sobre a Terra desperta a curiosidade, a série tem seguido o caminho do périplo entre criaturas que usam os seus poderes para mexer com a humanidade. Gillen tem feito coisas mais interessantes com Three, a antítitese da exaltação do militarismo sacrificial dos espartanos popularizada por Frank Miller, e a mistura de II Guerra com super-heróis criados em laboratório que é Über. Mas não deixa de ter os seus momentos, como esta encarnação psicadélica do deus Dionísio, com propensão para raves underground e uma t-shirt que revê fabulosamente o popular You Only Live Once com um toque de infinito.

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