sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Visões


Nathan Barley ep01: Desde que vi o primeiro episódio da série Black Mirror que percebi que Charlie Booker tem o dedo firmemente assente no pulso do tempo contemporâneo. Aquele primeiro episódio, com a conspiração e rapto seguida em tempo real através de redes sociais cuja pressão obriga o primeiro ministro britânico a sodomizar um porco ao vivo na televisão para salvar a vida da vítima, cumprindo com as exigências de um pretenso terrorista que afinal se revela ser um artista conceptual com uma doença terminal. Quando correu a notícia que a série iria ter uma versão americana pensei logo a sério? Quem será o argumentista que se atreve a meter o presidente dos Estados Unidos a sodomizar suínos, cedendo às exigências de terroristas? Uma questão que fica em aberto. O que me surpreendeu nesse episódio foi a forma certeira e dinâmica como Booker geriu a questão do imediatismo e pressões mediáticas dos media em tempo real. Essencialmente, Booker é um tipo que percebe as coisas. E, como se nota por este delirante episódio de uma série antiga, já percebe as coisas há muito tempo. Quer pela estética fragmentada e dinâmica, quer pelas personagens, patéticas caricaturas dos piores excessos da cultura hip mediática que, francamente, me parecem bem representativas de alguma parte do jornalismo digital e do tipo de programação cheio de inanidades bizarras e freakshows intencionais que enche a paisagem mediática fragmentada dos canais de tv por cabo.


The Quatermass Xperiment: Seria todo um tratado sobre a evolução estrutural da ficção científica a forma como estas histórias de um passado recente nos parecem hoje pueris e simplistas. Ainda divertidas, para os que conhecem mais profundamente o género e compreendem o enquadramento narrativo dentro da evolução da FC. Se bem que os elementos transversais às épocas estão lá. Viagem ao espaço, cientista confiante e determinado no progresso a todo o custo, evento misterioso no espaço que traz à terra uma força invasora com tendência para transformr o seu portador num monstro. Não é assim tão diferente de muitos enredos contemporâneos. Difere é na forma directa e pouco subtil com que se desenvolve desde o choque da descoberta inicial até à vitória final que aniquila o monstro invasor, com um longo e inevitável intermédio em que os mistérios se adensam. O Quatermass que dá nome à série é um irascível tecnocrata prototípico, incapaz de ver limites à busca da verdade científica. Imaginem um Doctor Who não alienígena, sério à quinta casa e sem qualquer pingo de irreverencia, e percebem este Quatermass. Uma obra obviamente datada, mas a ver por quem se interessa pelo lado clássico da FC.


Belarmino: Muito poderia ser dito deste filme de Fernando Lopes, pedrada no charco da cinematografia portuguesa da época e um dos grandes marcos do Cinema Novo. Poderíamos entrar pelo retrato dessa Lisboa de outras eras que este documentário ficcional regista, na visão crítica sobre um país oprimido, mantido pobre e fechado, na magistral banda sonora. Pessoalmente destacaria o absoluto rigor geométrico dos enquandramentos. A disposição das formas e das massas de cor no espaço visual é espantosa no seu rigor. Não é difícil imaginar as linhas visuais de força que equilibram as imagens deste filme muito próximo de um rigor fotográfico quase abstracto. 

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