quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Super-Cannes


J. G. Ballard (2000). Super-Cannes. Londres: St. Martin's Press.

A ficção de Ballard não é estranha às psicopatias induzidas pela arquitectura modernista. Induzida talvez não seja o termo correcto. Talvez, despertas, na suprema ironia do rebentar de surtos de violência irracional por entre a geometria simbólica do triunfo da racionalidade fria trazido pelo modernismo. Tem sido assim desde o clássico High Rise, e com o passar dos anos o autor introduz lógicas pervertidas de psicologia que racionalizam o irracional. Caso de Running Wild, sobre as depredações cometidas por crianças que sublimavam na violência a bondade de uma educação conforme os mais avançados pressupostos psicopedaógicos.

Tendências que colidem neste implacável Super-Cannes, que ainda se revela de uma presciência arrepiante no que toca aos excessos das classes plutocratas. Tendências visíveis desde sempre, sabemos, mas particularmente evidenciadas nestes tempos contemporâneos de crise sucessiva, esmagamento de direitos sociais tidos como financeiramente incomportáveis e disparo das desigualdades de rendimento para níveis estratosféricos. Hoje, mais do que nunca, a realidade em que os plutocratas vivem está desfasada da dos restantes habitantes planetários. Sintomas que Ballard detectou e perverteu com o seu estilo muito espcial neste romance de 2000 que nalguns aspectos soa tanto a 2015.

Descobrimos o paraíso tecnocrático de um parque-modelo de negócios à beira do Mediterrâneo. Arquitecturas limpas recortadas sobre os profundos azuis, espaços interiores sóbrios e anónimos servidos por vivendas prazenteiras e espaçosos parques de estacionamento interiores. Espaços propícios para a nova aristocracia empresarial e as suas legiões de servos em fatos de três peças, com o clima aprazível de Cannes a recompensar o empenho contínuo no profissionalismo. O nosso guia é um aviador de asas danificadas, piloto que está a convalescer de um acidente que o impede de voltar a voar e acompanha a jovem esposa ao parque de negócios de Eden-Olympia, jovem médica recém-recrutada para preencher a vaga deixada por um antecessor que, num assomo de loucura que irá obcecar o aviador preso ao chão, assassinou colegas e amigos do centro de negócios antes de ser abatido pelos seguranças privados.

Através desta obsessão, e dos comportamentos bizarros dos pequeno-burgueses com evidentes psicopatias sublimadas que povoam as salas de reunião e gabinetes de trabalho, descobrimos o segredo por detrás da bonomia empresarial. Uma psicopatologia induzida pelo psicólogo do parque para curar maleitas e neuroses que estimula os analistas financeiros, burocratas empresariais e decisores negociais a sublimar as suas neuroses e frustações com erupções de violência sobre minorias. Espancamentos aleatórios nos bairros árabes, violações sistemáticas das prostitutas das zonas pouco recomendáveis à beira do mediterrâneo, jogos amadores às voltas com pedofilia e tráfico de drogas, todo um catálogo de perversões violentas devidamente registadas em câmaras de vídeo pensado como terapia para manter elevados os níveis de energia e motivação dos corporate drones que prosperam na utopia racionalista financeira do parque empresarial. Jogos perigosos aos quais as autoridades fecham os olhos. Perante a prosperidade financeira, as vidas e o bem estar dos mais desfavorecidos tornam-se moeda de troca para garantir a continuidade do sucesso do parque empresarial.

É esta presciência sobre o gosto predatório de classes superiores que ganham energia exercendo violência directa sobre os seus inferiores que torna Super-Cannes arrepiante. Não que haja por aí muitas ratissages (limpezas étnicas de bairros degradados) onde advogados e economistas invadam casas de imigrantes para espancamentos aleatórios. As armas predatórias são mais insidiosas e passam por todo um sistema cada vez mais desumano que perverte a sociedade em nome de uma ideologia amarfanhada que mal disfarça compor-se de ganância de lucro a qualquer custo, indiferente aos problemas sociais, éticos, económicos e ambientais que gera. Algures no livro Ballard fala-nos de executivos hiper-produtivos, domadores de uma realidade e dependentes da violência para se manterem no auge das capacidades.

Fiel ao seu futurismo surreal, Ballard centra-se nos paraísos europeus onde o alto modernismo arquitectónico legou legiões de monólitos de cimento armado sob o azul profundo do céu como gigantescas antas cerimoniais para um novo milénio. Tal como mais tarde William Gibson, Ballard foi daqueles escritores de ficção científica que percebeu que a melhor forma de extrapolar o futuro para melhor compreender os desafios contemporâneos está no aproximar temporal. Do imaginar de futuros longínquos transferiu-se para a modernidade próxima, o futuro ao virar da esquina, os próximos minutos que são ao mesmo tempo estranhos e familiares. Especulações que extrapolam tendências do presente que, por vezes, se revelam de arrepiante presciência.

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