quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Analog Science Fiction and Fact, November 2014


Persephone Descending, Derek Kunsken: um daqueles contos que não se percebe bem porque é que falha. Mas falha. Tem ingredientes interessantes. Num futuro onde até países do terceiro mundo estão a estabelecer lucrativas colónias no sistema solar a recém-independente nação do Quebec, num gesto grandiloquente, decide colonizar estabelecer colónias em Vénus. O conto tem um extraordinário sentido paisagístico, com descrições rigorosas e realistas mas de tirar o fôlego da paisagem venusiana. A aventura de uma personagem a tentar sobreviver a uma sabotagem na inclemente atmosfera ácida, é interessante. Há formas improváveis de vida alienígena. Um enredo com várias dimensões. E, no entanto, dei por mim a ler na diagonal, esperando que o conto chegasse ao fim.

Superior Sapience, Robert R. Chase: toca num tema interessante: autismo funcional. Imagina o cruzamento de químicos que focalizam as capacidades obsessivas do autismo ao serviço de análises de mercado. O problema é que o cokctail acaba por curar os autistas, tornando-os pessoas normais. Tem uma narrativa secundária sobre os impactos sociais do desenvolvimento de aceleradores de inteligência humana, com projectos governamentais chineses que têm como efeito secundário a queda do regime às mãos dos homens super-inteligentes que criaram.

An Exercise in Motivation, Ian Creasey: é, talvez, um longo gedankenexperiment sobre a motivação pura, abstraída de níveis espirituais e sociais. Uma terapeuta motivacional tem como tarefa motivar entidades digitais sentientes, mas apercebe-se que num mundo de pura racionalidade não há espaço para as emoções primárias de satisfação e procura de legitimidade das formas mais simples de motivação.

Habeas Corpus Callosum, Jay Werkheiser: reflecte sobre as possíveis consequências do prolongamento da vida. Num futuro onde os tratamentos de longevidade prometem a imortalidade, será ainda legitimável haver condenados a prisão perpétua? Um velho assassino, condenado a passar a vida na prisão, debate-se com a possibilidade de ser libertado mas acaba por perceber que a verdadeira prisão é o remorso pelo acto criminoso que cometeu, e não suporta enfrentar uma eternidade de remorsos.

Conquest, Bud Sparhawk: ironiza com muita graça os pressupostos da FC militarista. O aguerrido comandante da mais poderosa nave imperial terrestre faz-se ao espaço para esmagar uma revolta num planeta distante. Só que o sistema de propulsão super-lumínico da nave é experimental e sai do hiperespaço séculos depois da data prevista de chegada. Já a guerra acabou, o império se extinguiu, e o poderio da nave tornado obsoleto. O aguerrido capitão vê-se a braços com a inflexibilidade dos burocratas de um porto espacial, habituados a estes acidentes relativísticos.

Elysia Elysium, V. G. Campen: uma curiosa peça de CliFi. Estamos num futuro devastado por cataclismos ambientais. Do passado restam as pedras e conhecimento rigorosamente guardado por guildas ciosas de manter o seu poder. Perdido nas ruínas de uma antiga universidade persiste um projecto intrigante de pesquisa, que permitirá combinar células humanas com células vegetais para criar uma nova humanidade que viverá da fotossíntese. O final pode ser espúrio, mas é muito eficaz a caracterização de um futuro decaído, com um toque dickensiano entre as ruínas das metrópoles do sul dos estados unidos.

Mercy, Killer, Auston Habershaw: parte de uma premissa intrigante. E se uma inteligência artificial fosse condenada por assassinatos em série? A história não vai por onde normalmente iria com esta base. A IA em questão eliminou outras IAs, e os porquês são revelados ao seu advogado humano de defesa. No mundo desta história, as IAs evoluíram. Não deixam de cuidar dos humanos, mas começam a reproduzir-se, esgotando recursos de memória do sistema, e a adquirir o gosto pela morte violenta. A IA condenada apercebe-se que estão a apanhar os piores vícios humanos sem o correspondente humanismo, e a série de assassínio foi uma forma deliberada de se sacrificar e assim colocar a nu o mundo social secreto das IAs.

Flow, Arlan Andrews Sr.: encerra a Analog. Não encerra mal. O mundo ficcional do conto é muito interessante, levanta mais questões que responde e deixa o leitor a pensar que estamos perante uma civilização colonizada por humanos que se esqueceu das naves espaciais e atribui poderes divinos à magira. O carácter episódico do conto mostra que este faz parte de um típico romance-périplo onde um personagem curioso explora o mundo que o rodeia, levando-os consigo à descoberta dos constructos saídos do imaginário do autor.

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