quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Consumed


David Cronenberg (2014). Consumed: A Novel. Nova Iorque: Scribner.

É impossivel separar Cronenberg como realizador de cinema deste Cronenberg escritor. A sua poderosa e desviante estética visual ganha uma dimensão diferente apreendida apenas através das palavras, mas está lá, e é tão marcante que suplanta a dimensão literária. Consumed lê-se melhor não como um romance mas como um guião cinematográfico com todos os pormenores detalhados.

Há em Consumed uma atraente frieza clínica, quase autista. Não se sente calor nesta leitura. A prosa é seca e visualmente rica mas de uma frieza emocional aterradora. Os personagens são consumidos pelas suas obsessões, tornando-se agentes autistas de acções automatizadas pelos seus impulsos. Novamente, não muito diferente do cinema obsessivo do autor, com as suas personagens inexoravelmente fascinadas por bizarrias corporais e conceptuais em cenários frios e austeros, quase cirúrgicos.

Sente-se também uma uma fetichização dos objectos de consumo, da pureza do design na tecnologia que nos rodeia. Cronenberg detalha meticulosamente marcas e nomes de produtos, com um olhar deliciado que só se repetirá noutro tipo de visões fetichistas sobre sexualidade ou assassínios macabros. Os personagens principais são apaixonados por gadgets topo de gama, daqueles que permitem registar com fidelidade o real e as impressões que deixa na consciência. As
ferramentas são mais do que meros objectos ou elementos de software, são extensões da personalidade dos personagens. Devo confessar que esta frieza desumana e obsessiva exerce um forte fascínio.

Dar ao personagem principal, um influente filósofo greco-francês acusado de assassinar e devorar num paroxismo de filosofia canibalística a sua igualmente influente esposa de Arosteguy é demasiado óbvio como metáfora irónica sobre os fenómenos influentes da alta cultura francesa. A vénia a Sartre/de Beauvoir é longa e não se fica por esta óbvia piada com a alta aristocracia cultural francófona (o nome é demasiadamente reminiscente de aristocratic guy para não ser coincidência). Esse assassínio, que se revelará uma pseudo-encenação envolvendo bizarrias filosóficas, obsessões tecnofetichistas e esse grande desconhecido que é a Coreia do Norte, dá o ponto de partida ao livro.

Um casal de jornalistas em eterno vaguear global, saltitando entre cidades à procura de histórias para documentar, arrancando momentos íntimos entre aeroportos é forçado, mais uma vez, a dividir-se pelo mundo. Ele, jornalista médico, acaba infectado com uma doença venérea rara ao envolver-se com uma paciente do médico húngaro cujas práticas radicais está a registar. Intrigado com a doença, viaja para o Canadá para se envolver com o médico que identificou a doença rara e lhe deu o nome. Pensando que vai traçar um perfil de um cientista obscuro, depara-se com o mistério da filha deste, obcecada com a impressão em 3D de partes de corpos e um horror à língua francesa.

Já a jornalista não se consegue libertar da obessão com o caso mediático do assassínio ritualista/canibal perpretado pelo super-filósofo e viaja até ao Japão, país onde este se refugiou, para o encontrar e escrever uma peça bombástica irrecusável pelos canais informativos da internet. Ao encontrálo e ser aceite no refúgio do monstro, inevitavelmente envolvendo-se física e emocionalmente com ele, descobre que a verdade aparente é uma farsa bem montada graças à ajuda de especialistas em efeitos especiais e a verdadeira verdade algo mais bizarro, embora menos chocante. Se a busca de perfeição filosófica do homem ronda a obsessão e a loucura, a realidade de um assassíno que não o foi mostra como o solipsismo conjugado com filosofia radical leva aqueles que por ela são consumidos a trilhar caminhos de uma nova normalidade aberrante para quem não partilhar do mesmo ideário.

A confissão final de Arosteguy, que ocupa um quarto do livro e é estranhamente desconexa do seu glogal, mistura um fascínio mórbido pelo corpo, o transformar a vida num espectáculo, virtualizando o real através de personas públicas que acabam por consumir a personalidade de quem as veste, e uma estranhíssima via narrativa que passa pela Coreia do Norte transmutado como centro de disseminação tecnológica perceptiva subsersiva alicerçado em tecnologias de apoio auditivo, filmes surrealistas propagandísticos e impressão 3D.

Não se percebe muito bem onde é que Cronenberg quer chegar com este livro. O ser consumido pela chama dos ideários, fascínios, fétiches ou filosofias quando se mergulha demasiado a fundo neles é um ponto óbvio. As obsessões de horror corporal que tem como realizador são expostas pelo olhar de fascínio mórbido com que nos leva a percorrer as cenas mais macabras. Os toques de hipermodernidade, com a colisão da tecnologia com o cérebro humano gerador de fantasias, também está em evidência com a obsessão por marcas tecnológicas, ferramentas digitais ou especulações conceptuais sobre tecnologias de ponta. Os espaços de fronteira onde o normal não segue o mesmo caminho que o do consenso global também se imiscuem, quer com a premissa dos académicos obsessivos que criam todo um mundo no topo das suas torres de marfim quer com a intrigante invasão norte-coreana. Visualmente rico, quase ballardiano pela temática e frieza clínica com que aborda a banalidade do que é anormal, este é um livro que nos consome e inquieta, não deixando o conforto de uma conclusão para o encerrar.

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