sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Why, Doctor, Why?


(ou como aprendi a deixar de me preocupar e adorar Doctor Who)

Sou fã de ficção científica quase desde que me lembro. A estética de foguetões a descolar em direcção ao espaço profundo, realismo surreal de hipotéticos alienígenas, promessas de abstração digital e, confesso, um toque de rayguns são fontes de eterno fascínio. A mente culta exige mais do que a iconografia e a excitação da aventura imaginária. Delicia-se com os ícones mas saboreia melhor se forem acompanhados de minuciosas construções de mundos ficcionais, intrigantes projecções de futurismo informado que são de facto reflexões sobre a contemporaneidade, ou exercícios de imaginário em estado puro a esticarem a lógica para além dos limites das suas consequências. A ficção literária especulativa e a banda desenhada são capazes de responder a esta exigência mista de deslumbre e profundidade conceptual. Cinema e séries televisivas, mais focadas no estímulo visual, nem por isso.

Não tenho grande paciência para as versões diluídas da FC em série televisiva. Fico insensível, por muito bons que sejam os cenários e CGI de séries como Star Trek ou Galactica. Tenho um fraquinho por Firefly, porque equilibrava bem o drama humanista típico do formato série com o estímulo ao imaginário de aventura exótica. E por ter terminado ao fim de uma época, ficando como um momento auto-contido e não se arrastando até à irrelevância de episódio em episódio. Gostando de ideias intrigantes, infodumps estimulantes e meticulosas construções literárias, não consigo perceber como é que me fui apaixonar pela série Doctor Who.

(I'm the Doctor. Doctor? Who? Exactly.)

Devo confessar que sou das pessoas menos indicadas para estar a falar de Doctor Who. Não conheço intimamente os detalhes historiográficos da série. Não distingo o ecossistema de alienígenas pelas suas primeiras sílabas. Sou incapaz de avaliar a linha narrativa de Hartnell a Capaldi. Não escolho favoritismos de personagens, épocas ou linhas narrativas.

Sei que é um alienígena avançado, Senhor do Tempo detentor de tecnologias incompreensíveis, herança da sua extinta civilização, capaz de dobrar o espaço e o tempo com a lampejante facilidade de um mestre de origami. Tem um carinho especial pelos primatas simpáticos deste terceiro calhau a contar do sol. Apresenta-se como um excêntrico com uma caixa azul, que saltita entre espaços e tempos e se safa das aventuras capacitando sempre os mais fracos.

Dentro da Ficção Científica, Doctor Who é das coisas mais afastadas do seu cerne que poderia imaginar. Claro que mete alienígenas e naves espaciais, viagens no tempo e outras coisas scifi, brinca com a ciência, mas tem um nivel de plausibilidade a tocar no raso. E é assumido nisso. Entretém. Diverte, não pretende ser didáctica. Especialmente, não pretende. Podemos acusar os argumentos convolutos de algum pretencisosimo, mas não a série em si. Assume-se como é. Coisa rara na cultura pop nos dias que correm, que pretende sempre parecer mais profunda do que realmente é.

Afastada do cerne intelectual da ficção científica, adapta muito bem as suas estéticas como um camaleão. Um Zelig da FC, como naquele filme de Woody Allen em que o personagem principal parece pertencer a todos os estratos sociais com que se cruza sem que realmente lhes pertença. Mas ao contrário de Zelig, Doctor Who não se dissolve e assume esta sua identidade. Veste todas as peles da FC, do Steampunk ao dieselpunk, aos monstros no espaço, à space opera ou à exploração espacial, aos robots assassinos e monstros incompreendidos, aos saltos no tempo entre passados, futuros e presentes divergentes. Toca no horror arrepiante. E fá-lo sempre bem, talvez por que o faça com leveza e entusiasmo, sem pretensões de aceder a uma profundidade que não está vocacionada para ter. No que toca ao género fantástico, Doctor Who comporta-se como o seu psychic paper, induzindo visões no espectador a cada novo episódio.

(Don´t blink.)

Os seus adversários replicam a glória low budget da cinematografia fantásticas de série B. Porque é que Daleks, cilindros ovóides equipados com desentupidores e batedeiras, nos aterrorizam? Como é que suspendemos a descrença perante os Cybermen com as suas cabeças que são óbvias chaleiras falantes presas a um desajeitado corpo mecânico? Não cesso de me arrepiar com o brilhantismo dos Weeping Angels, estátuas aterradoras que se mexem em tempo quântico (não me enganei, pois não?) e se apropriam do maravilhoso fúnebre da estatuária angélica. A gloriosa tradição do fato de borracha disforme e do monstro mais absurdo do que monstruoso vive e prospera a cada novo episódio da série.

Todas as semanas o Doutor, nas suas diversas encarnações, faz-nos saltar entre tempos e espaços, sem preocupações sobre paradoxos temporais, mas muito bom humor. Brinca, abertamente, com ideias e conceitos sem medo de consequências ou necessidade de verosimilhança. Nós, espectadores, suspendemos a descrença e encantamo-nos com aventuras em que tudo vai correr mal, mas termina sempre bem, e termina capacitando os aparentemente mais frágeis. O doutor pode ser um louco com uma caixa azul, mas não resolve nada. Mostra aos companheiros como resolver.

(It's bigger on the inside.)

Enche-nos o ouvido com frases que se tornam meméticas. Bowties ARE cool. It's bigger on the inside. I'm not sure I'm a hugging person now. Allons-y! E tantas, tantas outras. Cada episódio tem belíssimos momentos orais contextualizados do brincar com palavras, alguns deles trasnvasaram para para o espaço da cultura popular e tornaram-se uma espécie de aperto de mão secreto que distingue os whovianos.

A britishness focalizada na excentricidade da série e do personagem é algo que não é alheio ao fascínio que desperta nos fãs. Se David Tennant me encantou pela energia e espanto inocente que colocou na personagem, Matt Smith deslumbrou pela excentricidade em descarrilamento contínuo. Já Capaldi faz-me querer ser como o Doctor quando crescer. Irascível, impaciente, manipulador porque a idade trouxe-lhe experiência e sabe que algumas coisas são óbvias, outras inevitáveis, mas as surpresas aparecem de onde menos se espera. À beira dos quarenta suspeito que já não me falta muito. E já não falo em mais ninguém. Até porque não teria muito para dizer. Também não vou entrar em comparações de qualidade entre argumentistas. Goste-se ou não do seu trabalho, a verdade é que mantiveram na consciência global uma série idiosincrática com cinquenta anos.

(I must invent a wood setting.)

Mas porque é que eu gosto de Doctor Who? É um programa infantil, apesar de uma complexidade insuspeita para algo dedicado a crianças. Frenético. Ruidoso. Mas sempre maravilhoso, mesmo naqueles momentos menos bem conseguidos. E é aí que fico cativo das loucas aventuras do senhor do tempo com as suas inocentes companheiras e a sua caixa azul com interior muito espaçoso. Ah, e a chave de parafusos. Como esquecer essa epítome da tecnologia que é uma chave de parafusos sónica, colisão de phasers, blasters, tricorders, babelfish e tudo o mais que se quiser de tecnologia que se assemelha a magia? A sonic scredriver é como uma varinha mágica de um mago da tecnologia.

Sense of Wonder é um conceito importante para fãs de ficção científica, e descreve o deslumbramento com o ideário e iconografia do género. O que Doctor Who nos dá é sense of wonder em estado puro, recordando-nos o deslumbramento infantil que caracteriza os primeiros embates com o género. Longe das distopias, do cinismo cyberpunk, mais perto das space opera futuristas e do optimismo tecnológico dos primórdios do género. Doctor Who é FC vista pelos olhos de uma criança, e recupera dentro de nós esse deslumbramento inocente.

(Gasping, but somehow still alive/This is the fierce last stand of all I am - mas a referência é a uma canção dos Smiths.)

É este o porquê do meu fascínio, que não me deixa perder os episódios, analisar os guiões, ler as adaptações (se bem escritas, o que raramente é o caso) e admirar a iconografia. Sabendo que está a anos-luz de distância da FC hard/tecno-utopista/hipermoderna que me fascina. Mas tendo lá o cerne: puro sense of wonder. E ao perceber isto deixei de me preocupar. Passei a venerar as sublimes aventuras do The Doctor.


Notas para uma intervenção na Portugal Time Lord Academy, hoje na Faculdade de Ciências - Universidade de Lisboa. Quando me desafiaram para isto a minha primeira resposta foi não, mas a verdade é que não consigo dizer não a coisas interessantes. Sem saber bem o que poderia contribuir para um evento destes, pensei: e porque não tentar definir com precisão aquilo que me faz gostar de Doctor Who?

2 comentários:

Rui Bastos disse...

E foi uma excelente intervenção, apenas shadowed pelos incríveis 30 min proporcionados pelo John Brown. Mas foi por pouco, e a tua foi mais ao meu gosto: a verdadeira visão de um fã, a dizer o porquê de ser fã. Uma visão mais íntima do que a dada por John Brown, que "racionalizou" um pouco a coisa. Os meus parabéns, e será certamente para repetir! ;)

Falemos do conteúdo. A verdade é que nunca tinha pensado muito nisso, mas Doctor Who tem, realmente, uma capacidade de suspensão da crença simplesmente impressionante. Acho que em parte tem a ver com o seu carácter completamente imersivo: desde a música a todo e qualquer pormenor visual, tudo conspira contra nós.

Ver um episódio é mergulhar naquele mundo, e o carácter frenético do Doctor não nos deixa descansar nem parar para pensar, estamos demasiado entretidos a salvar o mundo! Ou o companion! Ou o próprio Doctor! Ou um monstro horrendo que apenas se quer reencontrar com a namorada!

A maravilha de Doctor Who é exactamente isto, o facto de ser tão extraordinariamente absurdo, como só os britânicos sabem ser. "Saleiros com desentupidores e chaleiras em corpos robóticos desajeitados." Nem mais.

artur coelho disse...

obrigado! adorei o momento!