quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Sepulturas dos Pais


David Soares, André Coelho (2014). Sepulturas dos Pais. Lisboa: Kingpin Books.

Uma fábula negra, sobre magia intemporal e a transiência do desespero. David Soares não parece ser grande crente na bondade humana. As suas personagens oscilam entre o trágico e o perverso, e isso sente-se com muita força nesta história sem heróis, apenas com personagens destroçados por tragédias pessoais ou homens sem escrúpulos ou empatia para com o outro. Um velho filho de pescadores, guardião do segredo da magia das areias, cruza-se com uma trágica jovem que procura na sexualidade descontrolada um alívio para a perda. Com ela vêm os homens que se aproveitam de tudo o que lhes possa fornecer prazer. Uma colisão que acabará mal, mesmo que por momentos fugazes dê lampejos de uma felicidade mágica. O que se mantém imutável é a intemporalidade da magia encerrada nas areias, que a necessidade lógica humana quer interpretar como um reencontro de almas entre mulheres sepultadas na praia e homens largados ao mar, tradição de que o velho descendente de pescadores é a última testemunha. Mesmo quando a modernida irrompe, sob a forma de um luxuoso empreendimento turístico que destrói a praia tradicional, a magia encerrada nas areias mantém-se. E, num final assombroso, reafirma-se como independente das necessidades humanas, fiel a uma aleatoridade inconcebível pela razão. No meio das trevas, reluz essa espécie de fé em algo que está para além de nós. Sempre esteve, sempre continuará.

Se a narrativa de David Soares se desenrola entre complexidade filosófica, sentimento mágico e descrença na redenção, o traço de André Coelho reafirma o lado negro da fábula, com um toque de grotesco. Apesar de estar mais comedido e menos experimentalista do que em Terminal Tower (como aliás se esperaria, uma vez que estamos a falar de uma outra vertente de banda desenhada), lega-nos algumas vinhetas assombrosas. Na minha mente perduram os olhos do barco sobre a praia ou as criaturas de areia que se levantam dos traços do pescador.

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