segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Comics


Moon Kinght #08: Brian Wood a mostrar que ter sido escolhido para suceder a Warren Ellis foi uma decisão acertada. O banalizado futurismo contemporâneo é o ponto fulcral de uma aventura do personagem que em si não é nada de especial. Intriga é a forma como é contada, numa narrativa que se constrói a partir de fragmentos de imagem onde se misturam as estéticas da fotografia de telemóveis, videovigilância e instantâneos noticiosos. Terá o argumentista encontrado inspiração no filme Open Window? É que a estética de fragmentação e diversidade de ecrãs é a mesma...


Thor #01: Pelo menos não seguiram a estética Red Sonja na redefinição da personagem. Mas não anda longe. Para os mais distraídos, a estética Red Sonja é o representar de poderosas personagens femininas em armadura de lingerie. O que não faz qualquer sentido, especialmente quando as heroínas de bikini metálico têm de combater possantes inimigos armados até aos dentes. Há pior, há sempre a estética Dejah Thoris, que faz os bikinis de malha metálica parecerem burkas. Mas a Marvel focaliza-se no grande público. Quanto a o Thor passar a ser a Thor, fico apenas curioso. Se bem que não é esta primeira edição que trará respostas. A nova heroína só se revela na última página, e percebeu-se que o Thor masculino ainda continuará a desempenhar um papel no estábulo de personagens Marvel. Piadas freudianas com a simbologia do martelo à parte, a ideia de mudar o género do personagem desperta-me a curiosidade  sobre o como e o porquê que irão certamente ser explorados na nova série. Não perco tempo com a conversa de estragar a personagem, até porque se queremos ser mesmo rigorosos nisso podemos começar a levantar objecções ao hábito da Marvel em perverter personagens da mitologia greco-romana e nórdica para as cooptar como elementos do simplismo dos comics de super-heróis. Hercules by Marvel, por exemplo, é, sempre foi e dificilmente deixará de ser um absoluto ridículo.


Uber #18: Kieron Gillen anda a livrar-se metodicamente dos empecilhos históricos à sua revisitação da II Guerra com seres super-poderosos. Desta vez atira-se à bomba atómica, cujo potencial de acabar de vez com os super-seres inimigos é anulado numa história em que uma uber com capacidades miméticas se infiltra no Projecto Manhattan, assassinando cientistas, sabotando a bomba atómica largada em Hiroxima e destruindo os laboratórios de processamento de material fissível. Porquê? Apenas para que Gillen possa prosseguir a sua história sem ter de se preocupar com a muito lógica hipótese de utilização de bombas atómicas para eliminar os super-soldados que criou nesta muito subtil e divertida ironia sobre super-soldados heróicos e a estética retro da II guerra.


Figment #05: Uma divertida e ingénua aventura de sabor steampunk que chega ao fim com uma mensagem muito pertinente: imagination is our key to unlock the hidden wonders of the world. Nem mais. O público alvo desta série é o muito young adult, com uma história divertida sobre um cientista inadaptado que triunfa com ajuda das feéricas criaturas dos mundos imaginários que a máquina que constrói desperta, no fundo a clássica metáfora da adolescência e da afirmação do indivíduo perante o mundo. Com dragões simpáticos e robots totalitários pelo meio. O traço foi do português Filipe Andrade, que nos legou uns monstrinhos de ar muito simpático.


Swamp Thing #35: Charles Soule escreve para a Oni Press o intrigante Letter 44, às voltas com ameaças alienígenas e desafios políticos. Mas também está a ver um trabalho interessante na DC. Pegou no Monstro do Pântano e depois de lhe dar os necessários volteios ao mythos de Alan Moore começou a mostrar uma voz própria e capacidade para levar o personagem em caminhos inesperados. Correntemente está a fazer experiências com as forças naturais do universo do personagem. Contrabalançou o parlamento das árvores e o verde elemental com The Rot, a carne, e os fungos, quatro pilares da vida cuja convivência nem sempre é a melhor mas que com o tempo encontraram entendimento e o necessário equilíbrio à vida planetária. Se bem que o Monstro do Pântano, avatar e defensor do verde, não se reduz a cumprir ordens e a seguir os planos de um Verde que nem sempre procura o equilíbrio homeostático planetário. Nesta edição Soule vai um pouco mais longe, e cria uma nova força elementar, sinónimo de vida. E fá-lo de forma algo singularitária, insuflando vida nas máquinas e criando uma nova força com a qual o Monstro do Pântano terá de se haver. Note-se a ambiguidade. Estas forças representam aspectos da vida à escala planetária e Soule decidiu incorporar a vida artificial como uma nova força que desperta e provocará convulsões enquanto se assume e ajusta. Descrevê-los como inimigos não é suficiente para fazer perceber as complexas relações que ultrapassam a dualidade simplista dos comics de super-heróis. O azul neon do brilho dos ecrãs será a cor desta nova metáfora da vida.

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