quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Nome Dela é Claire


Ross Pynn (1983). O Nome Dela é Claire. Lisboa: Europress.

É à custa de livros destes que Roussado Pinto ficará como uma infame nota de rodapé nas letras portuguesas. Nota, note-se, porque o elevado e rarefeito meio literário só a muito custo reconhece o gosto e o valor da literatura de género e quando o faz, é em nota de rodapé. Se é verdade que se encontra muita leitura medíocre, e que os constrangimentos da escrita de género assustam os altos literatos, é de notar que é existem pérolas da má literatura, exemplos de prosa atroz que contrariam o expectável e são leituras interessantes. Este romance policial é um típico caso destes.

O fio narrativo é de uma simplicidade extrema. Um assassino é recrutado por uma agência governamental secreta para eliminar uma espia soviética que está a ser bem sucedida no tráfico de segredos de estado para Moscovo. Mas desenganem-se se estão à espera de uma aventura gelada ao estilo de Le Carré. Pynn produzia a metro hard boileds sórdidos e neste há poucos limites que não ultrapasse. Começa por Mack, personagem principal cujo nome me faz pensar no clássico de jazz Mack the Knife. Se bem que este Mack é mais fã de tesouras do que de navalhadas e é condenado a fritar na cadeira eléctrica por ter arrancado as gargantas da mulher e da mãe à tesourada. É só uma questão de saber cortar no sítio certo. A descrição da antecipação dos mortais choques electrizantes é um sublime exemplo de grand guginol, que termina com o nosso anti-herói a acordar dentro de um caixão. O modo de recrutamento da agência secreta obrigava ao simular da execução de forma tão perfeita que apenas o médico legista, co-conspirador, sabia que não iria matar o condenado.

A ligação de Mack à agência liderada por um obscuro Fury (ligar a Nick Fury Agent of Shield é algo que me parece muito duvidoso, não entremos por aí) passa por uma mulher fatal, também ela uma condenada salva da cadeira eléctrica. É a Claire que dá o nome ao romance, por quem Mack se apaixona. Ou aliás, sendo mais correcto. Pynn cria um casal de obsessões sexuais fetichistas. A paixão aqui é algo de sórdido. Nestes livros o romantismo clássico arrepia-se de medo e foge a sete pés. Pynn até mete a meio umas cenas de voyeurismo com um velhote dono de um hotel rasca que se chateia com os seus hóspedes por achar que tem todo o direito de espreitar pelas fechaduras e gozar o espectáculo das suas proezas sexuais. Que no caso de Mack terão sido tão de excelência que o hoteleiro lhe dá o privilégio de ter toalhas limpas à disposição sem ter de pagar mais.

Para ajudar à festa Pynn retrata um personagem com sérios problemas psiquiátricos, ou, como coloca na sua prosa inimitável, "a sofrer do bestunto". Sempre mergulhado no seu sadismo interior, obcecado com a opressão da figura maternal, intepreta a realidade sob um prisma muito distorcido. Acaba por se tornar um retrato intrigante da forma como um psicopata vê o mundo. Quase me atreveria a dizer que há aqui um toque do mesmo gosto em questionar a percepção do real através da psicologia de P. K. Dick, mas os caminhos e os destinos são diferentes. Pynn quer chocar o leitor, porque sabe que é isso que o estimula a continuar a leitura. Ter um psicopata assassino salvo da cadeira eléctrica com obsessões doentias e um gostinho especial pela aplicação de tesouras a goelas é um desses elementos de choque.

A missão de Mack é eliminar uma agente soviética, Liliana Tovarich, que se integrou na sociedade americana como grande figura do feminismo, apregoando a inutilidade masculina e a necessidade de supremacia feminina. Leram bem. Tovarich. Que nome tão apropriado para uma espia russa. E sim, leram bem. A vilã oculta-se sob um disfarce feminista. É uma pequena amostra do nível estratosférico de misoginia deste livro. Retratar o feminismo como hipocrisia é um ataque menor num livro onde abundam cenas de sumbissão feminina à masculinidade do herói. A de mais perfeita misoginia é aquela em que Mack espanca Claire e esta, sorrindo em êxtase, confessa que nada mais a satisfaz do que um homem que saiba pôr a mão numa mulher. Comentários destes nos dias hoje deixariam um autor em sérios sarilhos na praça pública, a menos que seja escritora de romances eróticos em tons de cinzento. Note-se que não estou a defender a misoginia deste livro. Percebo-a como elemento de ficção escapista destinada a um público masculino que gosta de ser titilado com descrições próximas da pornografia sado-masoquista enquanto se revê na nostalgia da superioridade machista e sonha com aventuras arriscadas onde a coragem do homem triunfa contra todas as adversidades. A misoginia de Pynn, que já notei com outros contornos em "So Long" Jim, lê-se como a xenofobia de Lovecraft. Um defeito a apontar que não retira qualidade ao autor.

Leia-se qualidade de forma muito livre. Roussado Pinto era um consumado batedor de textos a metro, capaz de pegar nos mais sórdidos lugares comuns e urdi-los numa teia ritmada em livros para consumo imediato. Não estamos a falar de nenhum grande escriba, mas de alguém que apesar da prosa descuidada e estereotipagem dos temas até se consegue safar com livros divertidos. O que atrai em Pynn é o ter-se atrevido a levar aos limites uma prosa arriscada que não tinha grandes objectivos para além de vender livros brochados, nem quaisquer pretensões literárias. A malta gosta, a malta compra, o homem escreve e o livro vende-se, lê-se e depressa é posto de lado para se ler o próximo prazer culposo de sordidez sado-erótica em aventura policial dura.

A história termina mal. Nenhum dos personagens sobrevive. Claire sofre torturas sádicas às mãos da Tovarich que acaba atirada por Mack da janela depois deste lhe espetar um bisturi no olho. Cena descrita com todos os requintes sangrentos que poderíamos esperar. Pensem num Cão Andaluz de Buñuel cheio de gore. Mack cai sob as balas da fiel ajudante da espia, mulher sem filhos que se encantou quando Mack a confunde com a sua mãe.

Romance perverso e pervertido, que puxa de todos os recursos imagináveis de sordidez, crime e sadismo para chocar o leitor, O Nome Dela é Claire é um refinado exemplo de exploitation literária. Um tipo de livro difícil de imaginar no panorama literário português, e talvez só possível no momento de explosão das liberdades que se seguiu à queda do regime fascista. Se bem que aqui confesso o pouco conhecimento que tenho das datas de publicação original destes livros tão risqué, talvez ainda uma válvula de escape de necessidades libertárias dentro do obscurantismo estado-novista. A edição que tenho é uma reimpressão pela Europress nos anos 80 de obras que já foram reimpressas nos anos 70, pelo que consegui descortinar. O que fica é a surpresa destas obras de um bom péssimo escritor, algo que os bibliófilos sabem muito bem que não é paradoxo nenhum.

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